Ninguém na biologia teve uma carreira como a de Edward O. Wilson. Ele é uma das maiores autoridades mundiais em formigas, um influente teórico da evolução e um autor que é ao mesmo tempo prolífico, best-seller e altamente homenageado. E. O Wilson está há várias décadas no centro de controvérsias científicas que se espalharam pelos periódicos científicos e atingiram a opinião pública. Entre os ativistas do movimento ambientalista, Wilson é o estadista mais velho, o patriarca intelectual cujos escritos são fundamentais para o movimento. Perto de comemorar seu 90º aniversário, ele não apresenta sinais de perder o entusiasmo pela batalha.

“Vou lhe contar uma coisa sobre Ed — ele é um atirador intelectual de granadas”, observou David Sloan Wilson (sem parentesco), biólogo evolucionista da Binghamton University em Nova York. “Ele gosta de provocar. Isso é incomum em alguém tão estabelecido quanto ele.”

Quando adolescente, Edward Osborne Wilson começou sua carreira identificando e classificando todas as espécies de formigas no Alabama, sua terra natal. Aos 29 anos, Wilson alcançou uma posição permanente na Universidade de Harvard pelo seu trabalho com formigas, evolução e comportamento animal. Sua fama acadêmica mais ampla veio na década de 1960, quando ele e o famoso ecólogo Robert MacArthur desenvolveram a teoria da biogeografia de ilhas, que postulava como a vida se estabeleceu em terras isoladas e estéreis no meio do oceano. Esse estudo se tornaria um pilar da disciplina que ficou conhecida como biologia da conservação.

Em 1975, Wilson fez sucesso com Sociobiology: The New Synthesis, uma obra onde ele incluiu tudo o que se sabia sobre o comportamento dos insetos e aplicou aos vertebrados — incluindo seres humanos. O trabalho sugeriu que muitos dos comportamentos sociais observados nas pessoas, incluindo traços virtuosos como o altruísmo, podem ser atribuídos à seleção natural. Wilson logo se viu acusado de fornecer apoio intelectual a grupos racistas e “deterministas genéticos”. Manifestações nos arredores de Harvard exigiram que Wilson fosse demitido. A controvérsia só foi silenciada depois que Wilson ganhou o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção por On Human Nature, sua versão popularizada de Sociobiology, em 1979.

Até aquele primeiro Pulitzer, Wilson — um escritor fluido e elegante — havia publicado principalmente para a academia. A partir de então, Wilson começou a se dirigir ao público geral, traduzindo a biologia e sua própria pesquisa de forma acessível. Com o passar dos anos, ele ganhou o segundo Pulitzer por The Ants (1990), em coautoria com o biólogo comportamental Bert Hölldobler. Ele também produziria um livro de memórias, um romance e mais de duas dúzias de obras de não-ficção, muitas delas tão controversas quanto Sociobiology.

Controverso ou não, os livros de Wilson abordaram principalmente um tema: que devemos conhecer a história natural e a teoria da evolução para compreender completamente o futuro da humanidade no planeta. Em seu manifesto Biofilia, de 1986, por exemplo, ele sugeriu que os humanos têm uma necessidade biológica inata de estar na natureza e “se afiliar a outras formas de vida”. Em Half Earth: Our Planet’s Fight for Life (2016), ele ofereceu sua receita pessoal para acabar com a destruição da biodiversidade do mundo: os governos devem reservar metade do planeta como uma reserva natural.

Cheguei a pensar que entender os ecossistemas e o que ameaça seu equilíbrio será a próxima grande novidade nas ciências biológicas. Para salvar o meio ambiente, temos que descobrir como salvar os ecossistemas.

Há dois meses foi publicado seu último trabalho, Genesis: The Deep Origins of Society, uma atualização e reconsideração de algumas ideias sobre evolução introduzidas nos livros anteriores de Wilson. Gênesis, ele insiste, é “um dos livros mais importantes que escrevi”. Para discutir o livro Gênesis e conhecer os pensamentos de Wilson sobre as novas controvérsias que o livro pode gerar, nós o visitamos no mês passado em sua casa em Lexington, Massachusetts. Segue-se uma versão editada e condensada dessa conversa de três horas publicada pelo Quanta Magazine.

Wilson é há décadas um dos maiores especialistas do mundo em formigas. Enquanto adolescente na década de 1940, ele identificou e classificou todas as espécies de formigas em seu estado natal, o Alabama.

Nota do tradutor (N. T.): Essa entrevista foi publicada por ocasião do 90º aniversário de Edward O. Wilson. Hoje, 10/06/2021, ele está completando seus 92 anos.

É verdade que você fará 90 anos em junho?

Sim. E eu não posso acreditar! Sinto que tenho 35 ou 45 anos. Tenho o mesmo entusiasmo e saio da cama com a mesma facilidade ou dificuldade de sempre. Eu não sei o que aconteceu. Quando eu tinha 40 anos, presumi que faria as mesmas coisas aos 90. E estou fazendo.

Eu escrevo um livro por ano. Ainda estou fazendo viagens de história natural. No mês passado, fui ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, para fazer um trabalho de campo para o meu próximo livro. Porém, houve uma tragédia por lá, o tufão que causou tantas mortes e tantos danos. Meus amigos em Moçambique acharam que eu deveria esperar. Então, aqui estou em Lexington, trabalhando no meu 32º livro. Mesmo que eu não possa viajar neste momento, há muito que posso fazer a partir daqui. 

Qual o seu foco?

Ecossistemas. No ano passado, fui convidado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts para dar algumas palestras sobre ecossistemas. Ao preparar minhas palestras, vi o quão pouco sabemos sobre eles. Eu meio que me atrapalhei e passei a imaginar que entender os ecossistemas e o que ameaça seu equilíbrio será a próxima grande novidade nas ciências biológicas. Para salvar o meio ambiente, temos que descobrir como salvar os ecossistemas.

Você é um pouco viciado em trabalho, não é?

Bem, sim. Eu não acho que ser um “workaholic” é algo ruim. Quando eu tinha 13 anos, durante o primeiro ano da Segunda Guerra Mundial, havia uma escassez de entregadores de jornais em minha cidade natal, Mobile, Alabama. Os jovens de 18 anos estavam todos em guerra. Então, aceitei um trabalho entregando 420 cópias do jornal da cidade todas as manhãs. Eu pegava todos os jornais que podia, carregava na minha bicicleta e os entregava. Então eu voltava para a casa, pegava outra pilha e entregava. Chegava em casa às 7 da manhã, tomava o café da manhã e ia para a escola.

Achei que isso fosse normal. Sempre tive o costume de trabalhar muito e por muito tempo. Fazer algo incomum requer muito trabalho. Escrevi livros enormes. É um trabalho árduo.

Quais conquistas você considera mais significativas?

Você quer ver eu me gabar? [Risos] OK, aqui vai: criei algumas novas ideias e disciplinas. A teoria da biogeografia de ilhas tornou-se a base da moderna biologia da conservação. E então eu fiz coisas como quebrar o código químico das formigas, trabalhando com químicos e matemáticos para entender como as formigas falam umas com as outras.

Eu inventei a Enciclopédia da Vida, divulgando todas as informações sobre todas as espécies conhecidas. Criei, batizei e forneci a primeira síntese da Sociobiologia, que por sua vez deu origem ao campo da Psicologia Evolucionista.

Dizem que uma de suas grandes contribuições foi como um sintetizador de ideias científicas. Correto? 

Eu diria que sou um sintetizador. Adoro olhar para alguns aspectos da natureza, aprender tudo o que é acessível, reunir tudo e ver se consigo filtrar algo relevante para uma grande questão.

Dê-nos um exemplo de como você fez isso.

Meu quarto livro, The Insect Societies, é um deles. Na década de 1960, você tinha muitos entomólogos dedicados trabalhando na compreensão dos insetos sociais – abelhas, vespas, formigas. Mas não tínhamos um resumo de tudo o que se sabia e o que tudo aquilo significava. Então, em 1971, publiquei The Insect Societies, que fez muito sucesso. Na verdade, o livro foi finalista do National Book Award, o que me surpreendeu. Até então, nunca havia pensado no que fazer em literatura. O sucesso do livro me levou a pensar que eu deveria fazer uma revisão semelhante sobre vertebrados — mamíferos, répteis, anfíbios, peixes.

Naquela época, você via muitos bons biólogos trabalhando no comportamento social de diferentes tipos de vertebrados — pessoas como [as primatologistas] Jane Goodall e Dian Fossey. Achei que era hora de incorporar suas pesquisas mais recentes a uma teoria mais geral, ligando-a ao que eu e outros tínhamos desenvolvido para invertebrados. Essa síntese, publicada em 1975 como Sociobiology, incluía novas pesquisas sobre o comportamento social dos primatas.

Eu estava procurando aproximar as ciências biológicas e sociais para que pudéssemos entender melhor a natureza humana.

Na verdade, no final do livro, eu acrescentei um capítulo inteiro sobre o Homo sapiens, um primata que havia passado por várias etapas de evolução. Sugeri que muito do comportamento social humano poderia ser explicado pela seleção natural em certas atividades e etapas, levando a uma seleção de grupo cada vez mais complexa.

Isso não era novidade. O próprio Darwin apresentou a ideia com uma lógica impecável. A novidade era que eu estava trazendo a genética populacional moderna e a teoria da evolução para o estudo do comportamento social humano. Eu estava procurando aproximar as ciências biológicas e sociais para que pudéssemos entender melhor a natureza humana.

Vídeo: Edward O. Wilson, professor emérito da Universidade de Harvard, um naturalista influente e teórico da evolução que introduziu o conceito de “sociobiologia”, bem como um dos maiores especialistas mundiais em formigas. Aqui, ele explica a relevância dos comportamentos evoluídos dos insetos para a natureza humana.
Quando você escreveu o último capítulo, percebeu que estava pisando em uma mina terrestre?

Na época, de jeito nenhum, não. Achei que haveria elogios porque acrescentaria às ciências sociais um novo arsenal de informações básicas, análise comparativa, terminologia e concepção geral que poderia iluminar aspectos anteriormente não examinados do comportamento social humano.

Mas o início dos anos 1970, quando o livro foi escrito, foi uma época de controvérsia política acalorada, grande parte dela relacionada à Guerra do Vietnã, direitos civis e a pressão sobre a desigualdade econômica. Em Harvard, alguns colegas – não vou mencionar seus nomes aqui – tiveram problemas com a ideia de que poderia haver instintos em humanos. Eles viam a Sociobiologia como perigosa, cheia de potencial para o racismo e a eugenia.

Bem, meu livro não tinha nada a ver com racismo, mas essas pessoas forjaram sua própria descrição de como as ideias poderiam ser usadas.

Eles acharam que a Sociobiologia poderia ser usada para apoiar ideias racistas com a genética?

Acho que você pode descrever as opiniões deles dessa forma. De qualquer forma, começaram os protestos. As coisas ficaram péssimas. Quando dei uma palestra no Harvard Science Center sobre o assunto, uma multidão se reuniu em frente ao prédio. Tive de ser escoltado pela polícia pelos fundos para chegar à sala de aula e fazer a minha palestra. Quando compareci a uma reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), alguns manifestantes subiram ao pódio para gritar suas objeções, e um deles veio atrás de mim e jogou uma jarra de água gelada em minha cabeça.

O que você fez?

Eu me sequei e prossegui. Essa foi a única coisa que pude fazer. 

Embora não discuta sua visão política, você é uma pessoa de crenças geralmente liberais. Como se sentiu sendo caracterizado como ultrarreacionário?

Você quer saber como eu me senti? Eu temia que isso pudesse afetar minha família, minha esposa e filha. Um dia, havia uma multidão na Harvard Square, parando o trânsito e exigindo que a universidade me demitisse por causa do meu “racismo”. Mas isso nunca afetou minha família. Eu sabia que estava certo. Eu sabia que simplesmente teria que resistir à tempestade.

Com certeza, depois de um tempo, as ideias do livro começaram a se infiltrar: que a genética é uma forma eficaz de compreender muitos aspectos da biologia evolutiva e do comportamento. Com o tempo, a noção de que o livro era prejudicial começou a desaparecer e outros cientistas escreveram favoravelmente sobre a abordagem. Alguns até o usaram em seu próprio trabalho.

Eu sabia que estava certo. Eu sabia que simplesmente teria que resistir à tempestade.

O que realmente acabou com isso foi dois anos depois, quando recebi a Medalha Nacional de Ciência do presidente Jimmy Carter. Também escrevi e publiquei um livro sobre sociobiologia para um público mais amplo, On Human Nature. O livro ganhou o Prêmio Pulitzer na categoria Não-Ficção.

Seu último livro, Genesis, retoma algumas das ideias introduzidas na Sociobiologia. Entre as perguntas que você revisita está: “O que é a natureza humana?” Você também pergunta: “O egoísmo impulsionou a evolução humana?” Por que escrever esse livro agora? 

A história é que, no início dos anos 1960, conheci um geneticista britânico, William D. Hamilton. Ele teve essa ideia brilhante de que o comportamento social se originou com o que é chamado de “seleção de parentesco” ou “aptidão inclusiva”, em que os indivíduos de um grupo se comportavam de forma altruísta em relação àqueles com quem compartilhavam mais genes.

Na seleção de parentesco, um indivíduo pode sacrificar seus bens, ou mesmo suas vidas, em benefício do parente com quem compartilhou a maioria dos genes. Portanto, é mais provável que um indivíduo se sacrifique por um irmão do que por um primo ou alguém sem parentesco. O resultado final da seleção de parentesco seria uma espécie de altruísmo, embora fosse limitado ao seu grupo parental. 

Wilson analisa informações científicas relevantes para uma visita planeada ao Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique.

Essa ideia logo se tornou o evangelho no mundo da biologia evolutiva. Eu tinha ajudado a promover o trabalho de Hamilton, mas com o passar do tempo, desenvolvi minhas questões sobre ele. Certamente, em minha própria pesquisa, observei sociedades sofisticadas que evoluíram por meio da seleção de grupo, onde os indivíduos seriam altruístas em prol da sobrevivência de seu grupo. As formigas são um exemplo. Na verdade, quando você pensa sobre isso, as criaturas que dominam a Terra são cooperativas – formigas, cupins, humanos.

Enquanto isso, Martin Nowak, um matemático aplicado de Harvard, questionava questões semelhantes. Ele e sua colega Corina Tarnita estavam preparando um artigo detalhando suas dúvidas sobre a seleção de parentesco. Combinamos nossos esforços, acabamos produzindo um artigo para a revista Nature, onde afirmamos que a teoria de Hamilton era fundamentalmente falha. Sentimos que não poderia explicar como surgiram sociedades complexas.

Seu artigo na Nature, publicado em 2010, deu início a mais uma rodada de batalha acadêmica. Poucos meses depois que o artigo apareceu, mais de 130 biólogos evolucionistas – seus colegas – enviaram uma carta ao editor contestando sua tese. Você pensou: “Oh, não, lá vamos nós de novo?”

Bem, os editores da Nature tinham uma visão diferente. Antes da publicação, eles enviaram para um editor de Londres, e tivemos um seminário inteiro revisando as questões em nosso paper. Eles têm padrões bastante elevados e, depois, ficaram satisfeitos por ser um artigo bem fundamentado – talvez estivesse errado em alguns lugares que não eram óbvios, mas decidiram publicá-lo. Na verdade, eles gostaram tanto que fizeram disso uma matéria de capa.

Você sabe, já ouvimos tudo o que podemos ouvir sobre os aspectos destrutivos e negativos da natureza humana. Há muitas evidências de que evoluímos por qualidades que consideramos unificadoras e propícias para o futuro.

Então, por que o alvoroço?

Eu estava cancelando, ou tentando substituir, um corpo teórico que conquistou alguns seguidores que o aplicaram em seus PhDs e currículos. Suas carreiras dependiam disso. Eles escreveram artigos e livros e deram seminários sobre o assunto. Então não gostaram do que eu fiz. Eles disseram: “É tão óbvio que é verdade. Como você pode negar isso?” Dissemos: “Temos modelos matemáticos. Dê uma olhada.”

Com a publicação de Gênesis, você está reabrindo velhas feridas. Você estava querendo ir a mais uma discussão com seus críticos?

Sim e não. Eu queria resolver as questões sobre a seleção do grupo de uma vez por toda. Achei importante colocar nossa teoria em uma base sólida de evidências e matemática. Ou isso ou jogue fora. Gênesis acabou sendo um dos livros mais importantes que escrevi. O livro mostra que a seleção de grupo é um fenômeno que pode ser definido com exatidão. Eu mostro que isso ocorreu pelo menos 17 vezes.

A seleção de grupo é uma importante parte das grandes transições da evolução, onde a vida progrediu de organismos semelhantes a bactérias para células com estruturas internas, e para organismos simples que eram agrupamentos dessas células, para organismos diferenciados formando grupos e assim por diante. Apresentei essas transições contra o pano de fundo da seleção de grupo versus seleção individual.

Wilson demonstra como produzir sons semelhantes aos de um sapo a partir de um brinquedo entalhado à mão enviado por um admirador.

Agora, existe uma sucessão de comportamentos sociais nos quais a sociedade avançada se baseia. Com os humanos, nosso avanço foi auxiliado pelo fato de que éramos bípedes, com braços livres e dedos que agarravam, e que vivemos primeiro na savana, onde incêndios frequentes [naturais] nos davam animais pré-cozidos para comer. Além do mais, tínhamos uma boa memória de longo prazo e capacidade para altos níveis de cooperação, sendo o altruísmo um forte fator motivacional.

Você sabe, já ouvimos tudo o que podemos ouvir sobre os aspectos destrutivos e negativos da natureza humana. Há muitas evidências de que evoluímos por qualidades que consideramos unificadoras e propícias para o futuro.

A teoria de Hamilton implicava que um processo estava acontecendo quando os parentes se reuniam e que eles eram mais propensos a formar um grupo por causa de seus genes compartilhados. No entanto, esta explicação está repleta de erros e dificuldades matemáticas. Parte do nosso sucesso evolutivo ocorreu porque os grupos se formaram, e eles tendiam a ser altruístas. Relações genéticas ou não, esses grupos frequentemente cooperavam, o que é parte da razão pela qual nós, Homo sapiens, tivemos sucesso.

Você poderia nos dar “o argumento do discurso do elevador”, a conclusão sumária de sua teoria?

É a maneira como meu colega David Sloan Wilson coloca. Ele diz que, dentro dos grupos, os indivíduos egoístas derrotam os altruístas. No entanto, em conflito, grupos de indivíduos altruístas derrotam grupos de indivíduos egoístas. Você sabe, já ouvimos tudo o que podemos ouvir sobre os aspectos destrutivos e negativos da natureza humana. Há muitas evidências de que evoluímos por qualidades que consideramos unificadoras e propícias para o futuro.

Dr. Wilson, pessoalmente, você é extremamente cordial e educado. Por que então você é um para-raios de tanta polêmica?

Talvez seja porque eu prefiro ideias originais a ideias simplesmente agradáveis.

Sua colaboração com Martin Nowak é fascinante. Você costuma fazer parcerias com matemáticos?

Eu faço. Acho que os modelos matemáticos são uma boa maneira de pensar sobre fenômenos quantitativos complexos e, às vezes, qualitativos. Modelos matemáticos podem prever essas coisas com precisão. A pesquisa biológica testa esses modelos. Quando estou tentando construir uma teoria testável precisa, como estava no Gênesis, dou minha opinião aos matemáticos aplicados e, com sorte, eles resolverão o problema.

Acho essa abordagem empolgante. Em partes devido ao meu trabalho com Nowak, passei a acreditar que uma ciência totalmente nova está surgindo, que combinará a história natural de campo com modelagem matemática e experimentos semelhantes aos conduzidos em um laboratório. Esse tipo de ciência será mais interessante para o público e atraente para os jovens que desejam ingressar em uma carreira em ciência e tecnologia. Também nos dará uma base firme para salvar o mundo natural.

Quando você está considerando um matemático para colaborar, quais são as qualidades que você procura?

O mesmo que eu procuraria em um encanador ou empreiteiro. Eu quero que eles sejam os melhores no que fazem.

Em quais outras ocasiões você entrou em tais parcerias?

Quando eu estava elaborando uma teoria da transmissão de feromônios — como os odores são transmitidos entre formigas e mariposas — colaborei com Bill Bossert, um matemático aplicado que mais tarde recebeu o cargo de professor em Harvard. Acredito que uma ciência totalmente nova está surgindo, combinando história natural no campo com modelagem matemática e experimentos semelhantes aos conduzidos em um laboratório.

Acredito que uma ciência totalmente nova está surgindo, combinando história natural no campo com modelagem matemática e experimentos semelhantes aos conduzidos em um laboratório.

Anteriormente, eu tinha me reunido com outro ecologista brilhante treinado matematicamente, o falecido Robert MacArthur, da Universidade de Princeton. Juntos, elaboramos a teoria da biogeografia de ilhas, que ajudou a explicar por que havia certo número de espécies de diferentes tipos de organismos em ilhas de tamanhos diferentes. Alguns de nossos dados foram coletados anos antes, quando fui ao Pacífico Sul para estudar espécies de formigas. MacArthur conseguiu apresentar o modelo certo para descobrir como meus dados poderiam ser aplicados à nova questão.

A teoria da biogeografia de ilhas fez sua carreira. Mas, à medida que seu aniversário de 90 anos se aproxima, você pensa sobre o que mais gostaria de ser lembrado?

[Risos] Sabe, eu nunca tentei realmente pensar sobre isso, honestamente. Bem, talvez eu gostaria de ser lembrado por chegar a uma idade tão boa e permanecer produtivo até o fim – eu gostaria de ser lembrado por aquelas coisas em que coloquei meus esforços. Certamente gostaria de ser lembrado por ter criado várias novas disciplinas e corpos teóricos que tiveram impacto na ciência.

Não quero ser insensível, mas pergunto se você já pensou na morte?

Oh, aprendi a conviver com a mortalidade. Minha frase favorita de Darwin foi sua última linha para sua família. Ele disse: “Não tenho o menor medo de morrer”. E eu também não. Eu vejo a vida como uma história. É uma série de eventos que ocorreram, alguns deles importantes para você e algumas outras pessoas. Você passou bem, você fez isso e aquilo. E pode ser escrito como uma história. Isso é o que significa uma vida.

Muitas pessoas pensam nisso como uma estação de espera para a próxima vida. Ou [eles estão focados em se] talvez encontrem uma maneira de estender essa vida em mais 10% ou 20%. Não acho que seja uma maneira muito inteligente de viver. Portanto, não estou com medo. Estou realmente ansioso para terminar este livro que estou escrevendo agora sobre ecossistemas. E para descobrir como irei a Moçambique para fazer o trabalho de campo.

Tradução e adaptação de artigo publicado originalmente em Quanta Magazine por Claudia Dreifus. Fotos de Ken Richardson para o Quanta Maganize.

Samuel Fernando
Samuel Fernando

É biólogo, estudante de engenharia de computação e vinculado a um grupo de pesquisa em neurociência computacional na Universidade Federal do ABC.

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