As discussões sobre a sociobiologia humana nos anos de 1970 e 1980 introduziram vários mitos na antropologia. Embora o fulgor dessa polêmica tenha se dissipado, esses mitos ainda dividem os subcampos da área, como o evolucionista e o sociocultural. Em um momento em que todo o nosso empreendimento acadêmico está sob ataque, devemos evitar disputas destrutivas desnecessárias. Aqui, buscamos derrubar três dos mitos mais perniciosos sobre a nossa disciplina que os antropólogos não-evolucionistas geralmente acreditam.

Mito #1: Darwin foi um típico racista vitoriano
O livro de Darwin A Descendência do Homem (1871, 1874) nunca foi leitura obrigatória em antropologia, nem mesmo em antropologia biológica. Uma pena, porque o verdadeiro Darwin era muito mais interessante do que os mitos sobre ele. Na época vitoriana, os argumentos pró-escravidão sustentavam que as “raças” humanas eram, na verdade, espécies diferentes — logo, se um leiteiro pode manter vacas, por que um dono de plantação não pode manter escravos? Se os africanos são de uma espécie diferente, o princípio não é o mesmo?

“NÃO SOU UM HOMEM E UM IRMÃO?”, diz o medalhão antiescravocrata encomendado em 1787 pelo abolicionista Josiah Wedgwood, avô materno de Charles Darwin. Smithsonian National Museum of American History.

No capítulo sete, “Sobre as raças do homem”, Darwin descreve o argumento com alguns detalhes e, em seguida, o destrói. Por exemplo, Darwin observa que os cruzamentos de espécies diferentes resultam em descendentes estéreis, se é que resultam em qualquer descendência. Ainda assim, durante sua longa estada na América do Sul na viagem do Beagle, ele observou que africanos, nativos americanos e europeus haviam se casado extensivamente e que não havia nenhum sinal de colapso reprodutivo esperado se essas raças fossem de espécies diferentes. Ele resume seu argumento da seguinte forma:

Os Aborígenes Americanos, os Negros e os Europeus são tão diferentes uns dos outros quanto quaisquer três raças que podem ser nomeadas; ainda assim, eu ficava constantemente surpreso enquanto vivia com os fueguinos a bordo do ‘Beagle’, com os muitos pequenos traços de caráter mostrando como suas mentes eram semelhantes às nossas.”

Descrevendo a evolução das faculdades intelectuais e morais no capítulo quatro, ele concluiu que a espécie humana como criatura biológica evoluiu nos “tempos primordiais” por seleção natural e que as mudanças desde então se devem principalmente a tradições e leis, não a mudanças orgânicas (ou o que poderíamos chamar diferenças genéticas). Essas eram visões surpreendentemente modernas para a época de Darwin e inspiraram as perspectivas antirracistas de antropólogos posteriores, incluindo Franz Boas.

Mito #2: Evolucionistas não pensam que a cultura e a agência individual são importantes
Essa alegação está em grande parte equivocada. Modelos evolutivos comparativos de desigualdade, de imprevisibilidade de recursos e estresse de patógenos assumem que, embora as culturas sejam diversas, todos os humanos são fundamentalmente semelhantes em termos de sua capacidade de responder aos desafios adaptativos. Os antropólogos evolucionistas também reconhecem e exploram as maneiras pelas quais a cultura pode modular poderosamente essas respostas. Por exemplo, em Current Anthropology, Bernard Chapais (2014) introduz o conceito de universais transculturais dependentes de contexto, observando que o comportamento de corte deve ocorrer universalmente devido à nossa história evolutiva, mas que, porém, é culturalmente suprimido em muitas sociedades. Hames e colegas (2017) acharam este conceito útil em uma reanálise de Amostra Cruzada Padrão nos Arquivos da Área de Relações Humanas. Eles mostram que a androfilia masculina é mais amplamente praticada do que anteriormente documentado, mas ainda assim reprimida em várias culturas, apesar das evidências claras de que muitos fatores biológicos influenciam sua expressão. Richerson defende há muito tempo que a cultura e os genes são duas linhas interativas de herança que, juntas, moldam o comportamento e a biologia humana, com as forças culturais às vezes se tornando motores muito mais importantes de comportamento e mudança.

A agência é um conceito importante na antropologia sociocultural contemporânea e na antropologia evolucionista. A teoria ecológica comportamental afirma que indivíduos e grupos se adaptam estrategicamente aos ambientes locais, mas geralmente escolhem estratégias diferentes — e, no contexto da evolução cultural, as pessoas escolhem ativamente quais itens inventar e adotar. As culturas, por sua vez, agem como forças seletivas sobre os genes humanos; portanto, não é exagero dizer que a biologia da espécie humana foi e é moldada pela ação humana. Aqueles que acreditam que as abordagens evolucionárias ignoram a cultura ou agência simplesmente não leram o nosso trabalho e o de nossos colegas.

Mito #3: A teoria evolutiva leva a visões políticas reacionárias
Duas pesquisas, uma com estudantes de psicologia evolucionista e outra com estudantes de antropologia evolucionista, descobriram que as orientações políticas desses estudantes eram praticamente indistinguíveis às de estudantes não-evolucionistas.

Os antropólogos evolucionistas baseiam-se na teoria da evolução para formular e testar hipóteses sobre a variação no comportamento humano e nas populações. No entanto, também incorporamos muitos métodos e motivações de outros subcampos em nossa pesquisa. Ao dissipar os mitos acima para os estudiosos não-evolucionistas, seguimos os objetivos declarados da Evolutionary Anthropology Society (EAS):

[encorajamos] uma perspectiva evolutiva teoricamente unificada que ultrapasse as fronteiras disciplinares [….] e seja uma força unificadora na Associação Antropológica Americana, não uma força divisiva.


Tradução do original Busting Myths about Evolutionary Anthropology, da autoria dos antropólogos evolucionistas Peter Richerson e Raymond Hames.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.

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