A literatura do conflito letal pela ótica das ciências evolutivas comportamentais é prolífica, e contribuem nela historiadores, antropólogos, primatólogos, psicólogos experimentais, zoólogos e vários outros pesquisadores de conclusões ortodoxamente convergentes. Por isso, trazemos a vocês um compilado das publicações que julgamos mais importantes para entender o assunto de uma perspectiva multifacetada — não só biológica, nem só social, mas sociobiológica:

Yanomamö: The Fierce People (Napoleon Chagnon, 1968)
Primeiro trabalho etnográfico a fazer uso da sociobiologia para estudar uma sociedade indígena, os ianomami da Amazônia. Hoje com mais de 5 edições e referência em cursos de antropologia, dentre todos os aspectos sociais estudados (demografia, sistemas de crença, cultura simbólica e outros), o que gerou polêmica foi a conclusão de que, como ocorre entre primatas não-humanos, a violência era adaptativa entre os indígenas, com homens que mais matavam sendo também os que mais deixavam descendentes.

Despotism and Differential Reproduction: A Darwinian View of History (Laura Betzig, 1986)

A partir do registro etnográfico, apresenta uma ampla historiografia em defesa da seleção sexual (a desigualdade genética nas variâncias reprodutivas de homens e mulheres e sua relação com a desigualdade de poder) como um fator determinante na história humana, contrapondo Charles Darwin a Jacques Rousseau e Karl Marx.

Homicide (Daly & Wilson, 1988)

Propõe razões adaptativas à universalidade do homicídio como um fenômeno de ocorrência majoritariamente masculina. Figura na coleção Foundations of Human Behavior ao lado de Human Ethology (Irenäus Eibl-Eibesfeldt, 1989).

The Origin of War: The Evolution of a Male-Coalitional Reproductive Strategy (Johan M. G. van der Dennen, 1995)

Primeira síntese evolucionista dedicada exclusiva e extensivamente ao assunto escrita por um antropólogo.

A Guerra Antes da Civilização – O Mito do Bom Selvagem (Lawrence Keeley, 2011)
Publicado inicialmente em 1997, busca desmitificar a noção de que a guerra foi introduzida nas sociedades tradicionais pelo contato entre nativos e colonizadores, e que antes da sociedade estratificada como conhecemos hoje a humanidade era pacífica. Indo além, usa o reconhecimento das bases biológicas do conflito para propor melhorias na sociedade humana.

Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Por Que a Violência Diminuiu (Steven Pinker, 2011)
Analisa a etnografia, a arqueologia e a antropologia da violência e argumenta, com base na geopolítica e na sociologia, que sociedades modernas são estatisticamente mais pacíficas do que sociedades tradicionais.

The Oxford Handbook of Evolutionary Perspectives on Violence, Homicide, and War (Shackelford & Weekes-Shackelford, 2012)
Manual que faz uma síntese no assunto. O livro inclui artigos sobre violência contra parceiros íntimos, abuso infantil, violência entre irmãos, suicídio, violência entre adolescentes, abuso sexual, terrorismo religioso, crueldade contra animais e vários artigos que abordam a agressão humana e não-humana entre grupos, além de guerra.

Nobres Selvagens: Minha vida entre duas tribos perigosas – os Ianomâmis e os antropólogos (Napoleon Chagnon, 2015)
Autobiografia do mesmo autor de Yanomamö: The Fierce People, contando a história de seu trabalho de campo com os indígenas e a repercussão sociopolítica de sua pesquisa entre antropólogos culturais e a mídia. Também relata a reação agressiva, caluniadora e criminosa de seus detratores, que estigmatizaram sua reputação depois que seus resultados questionaram dois dos maiores dogmas das ciências sociais: o de que o comportamento humano não sofre influência da biologia e que as sociedades alheias ao capitalismo são pacíficas.

Animal Weapons: The Evolution of Battle (Douglas Emlen, 2015)
Trata do armamento animal (dentes, músculos, chifres, garras) num contexto adaptativo, sua dinâmica evolutiva e pressões de seleção. Além disso, faz um paralelo com o desenvolvimento do armamento letal humano.

Evolutionary Criminology: Towards a Comprehensive Explanation of Crime (Durrant & Ward, 2015)
Propõe que a criminologia precisa admitir perspectivas evolucionistas, estas que não contrariariam o conhecimento tradicional de que a cultura e a sociedade influenciam na prevalência da violência. Escrito por dois sociólogos, apresenta as Quatro Causas de Tinbergen, modelo fundante da etologia, como fundamento para uma criminologia biossocial.

The Goodness Paradox: The Strange Relationship Between Virtue and Violence in Human Evolution (Richard Wrangham, 2018)
Analisa a ambiguidade humana em relação à violência e à paz a partir da hipótese da autodomesticação, que aponta a atuação da violência (a pena de morte) como concomitante ao desenvolvimento de organizações sociais mais pacíficas. Também explora de que modo a cultura se transformou em uma pressão seletiva pacificadora que moldou, além do nosso comportamento, a nossa anatomia.

Etologia & Sociobiologia
Etologia & Sociobiologia

Iniciada em 2018, E&S é uma iniciativa de popularização das ciências evolutivas comportamentais.