Stephen Jay Gould, o famoso paleontólogo do século XX, publicou seu trabalho mais famoso, A Falsa Medida do Homem, em 1981. Nesse trabalho, sua tese é a de que, ao longo da história da ciência, os cientistas que estudavam seres humanos permitiram, com base no próprio preconceito, que suas crenças sociais colorissem suas análises e sua coleta de dados. Gould acreditava que esse viés de confirmação era particularmente poderoso quando as crenças dos cientistas eram socialmente importantes para eles.

Para Gould, esse preconceito era excessivo em determinados campos acadêmicos, e o alvo mais proeminente de sua crítica em A Falsa Medida do Homem foi o estudo da inteligência, especialmente os testes de QI e a genética da habilidade mental. E sua análise não foi tão gentil. Gould acreditava (p. 210) que havia uma conexão direta entre o desacreditado estudo das medidas craniométricas e o início dos testes de inteligência, que aconteceu na geração seguinte:

Mas o QI […] depende de suposições […] tão frágeis quanto aquelas que sustentam as velhas hierarquias de tamanhos de crânios propostas pelos participantes do século XIX.

Pode ser surpreendente para os leitores que eu — um psicólogo que trabalha com o tópico da inteligência humana — concorde com a tese principal de Gould. As noções preconcebidas dos cientistas orientam sua coleta e análise de dados. Essas noções norteiam os cientistas em relação a quais variáveis escolher, quais teorias testar, quais métodos estatísticos empregar e muito mais. A conexão entre os preconceitos pessoais e a metodologia de pesquisa é forte. Afinal, se você acredita que o universo é feito de queijo, você vai construir um detector de queijo cósmico.

A Falsa Medida do Homem, edição de 2014.

E embora eu desejasse que Gould não tivesse visado minha área de atuação, A Falsa Medida do Homem fornece uma grande quantidade de evidências à alegação de que crenças preexistentes colorem os julgamentos dos cientistas — mas não da maneira que Gould queria. Em vez disso, o livro é o exemplo perfeito do pecado que pretende expos nos outros: as crenças políticas marxistas de Gould o fizeram atacar a pesquisa de inteligência porque ele via esse tipo de pesquisa como uma ameaça aos seus objetivos socialistas igualitários. Ironicamente, foi essa fidelidade à ideologia frente aos dados que fez do próprio Gould um exemplar clássico de cientista tendencioso.

A política de Gould
Gould admitia abertamente que suas crenças sociais influenciavam em sua visão científica de mundo. Nas páginas introdutórias da edição revisada de A Falsa Medida do Homem, ele relatou seus louváveis esforços ao combate à discriminação e a segregação americana e britânica dos anos 50 e 60. Ele deixou clara (p. 36) a conexão existente entre suas crenças políticas e seu papel como cientista:

Minha razão principal em escrever A Falsa Medida do Homem se deve a uma mistura de motivações pessoais e profissionais. Confesso, para começo de conversa, que tenho fortes sentimentos sobre este assunto. Cresci em uma família com tradição em campanhas ativistas pela justiça social, e eu era ativo, como estudante, no movimento dos direitos civis, em uma época de grande entusiasmo e sucesso no início dos anos 1960.

Ele também admite que essas crenças arraigadas são uma parte emocionalmente importante em sua vida:

Meu pai se tornou um esquerdista, junto de tantos outros idealistas, durante os levantes da Depressão, durante a Guerra Civil Espanhola e frente ao crescimento do nazismo e do fascismo. Ele permaneceu politicamente ativo […] e politicamente comprometido. Sempre serei grato, a ponto de chorar, porque, embora ele nunca tenha visto a publicação de A Falsa Medida do Homem, ele viveu tempo o suficiente para ler as provas preliminares e saber […] que seu estudioso filho não havia esquecido de suas raízes.


O tiro saiu pela culatra
Se a tese de Gould é verdadeira para todos os cientistas, e ele por vezes escreveu como se fosse, então há um problema óbvio: ele estaria sujeito aos mesmos preconceitos, e suas conclusões, como as conclusões dos estudiosos visados em A Falsa Medida do Homem, seriam inerentemente falhas — incluindo sua afirmação de que toda análise científica é tendenciosa. Para evitar que sua tese fosse prejudicada, Gould realizou um truque intelectual e redefiniu uma ideia crítica. “A objetividade deve ser definida operacionalmente como um tratamento justo dos dados, não como ausência de preferência,” ele escreveu (p. 36). Desse modo, Gould usou uma das estratégias retóricas pós-modernistas: redefinir os termos para que não tenham seu significado cotidiano, mas sim um significado preferido, de modo que não ameacem a conclusão requerida pela pessoa.

Ao redefinir “objetividade” de modo que ainda fosse possível ter preferências e preconceitos, Gould visa manter a pátina de respeitabilidade científica e tenta inocular a si mesmo da inerentemente contraditória posição em que se encontrava. Essa estratégia retórica permitiu que ele separasse preferência e objetividade para afirmar que — de alguma forma — ele foi capaz de analisar os dados “objetivamente” sem minar as próprias conclusões. Gould era muito parecido com o marxista ou pós-modernista que acredita que estruturas de poder invisíveis controlam todos os aspectos da vida — menos a vida do marxista ou pós-modernista, que, graças à sua extraordinária coragem intelectual e perspicácia, possui a especialidade de escapar dessas estruturas.

Na verdade, os piedosos protestos de objetividade feitos por Gould disfarçaram uma análise enganosa do registro acadêmico em relação à pesquisa em inteligência. O que surpreende é o fato da maioria das pessoas ignorarem as contradições na posição de Gould, aceitando uma análise politicamente motivada fornecida por um especialista em caracóis.

Os críticos de A Falsa Medida do Homem
Muitos estudiosos criticaram periodicamente A Falsa Medida do Homem ao longo de sua história de 38 anos. Por exemplo, James T. Sanders afirmou que a tentativa de Gould de vincular seu argumento ao antirracismo foi uma manobra para difamar os pesquisadores do tópico da inteligência, incluindo os inimigos de Gould, como pessoas más. Arthur Jensen argumentou em 1982 que Gould deturpou suas ideias e muitas vezes demoliu espantalhos que nenhum pesquisador em inteligência acredita, incluindo o bicho-papão do “determinismo biológico”. John Carroll mostrou que Gould não entendia nem o propósito e nem a interpretação da análise fatorial (um procedimento estatístico frequentemente usado na avaliação dos dados em testes psicológicos), e que seus ataques à referida análise não alteram a importância dos testes de inteligência, nem a maciça evidência — impossível de contestar — de que eles preveem importantes resultados na vida real.

A maioria das críticas direcionadas à Falsa Medida do Homem foi confinada ao recherché dos psicólogos que estudam a inteligência. Porém, um novo debate começou em 2011, quando uma equipe de antropólogos argumentou que a análise de Gould em relação às medidas craniométricas feitas originalmente no século XIX pelo cientista Samuel George Morton eram fraudulentas. Gould classificou Morton como um racista que falsificou seus dados para confirmar preconceitos sobre a superioridade racial branca, visto que os crânios caucasóides eram supostamente maiores que os negróides na medição. Em oposição, argumentaram os antropólogos que foi Gould quem manipulou os dados para confirmar os próprios preconceitos.

Isso desencadeou uma série de artigos na literatura acadêmica, que assumiram uma variedade de posições em relação aos dados de Morton e às interpretações de Gould. Weisberg acredita que a reanálise era falha e Gould está majoritariamente correta. Kaplan e colegas alegaram que as interpretações de Morton eram falhas, mas que Gould estava incorreto ao acreditar que podia inferir as motivações de Morton. Por fim, Mitchell defendeu que os dados de Morton eram precisos e que as interpretações eram coloridas pelo racismo da época, mas que a alegação de que Morton manipulou sutilmente os dados era uma ficção criada por Gould.

Embora ainda em aberto, o debate mostra que uma análise crítica de seções específicas da Falsa Medida do Homem é necessária. Depois de escrever um artigo sobre Lewis Terman, um pioneiro nos testes de inteligência, decidi que uma seção de 23 páginas de A Falsa Medida do Homem merecia uma análise. Esta seção é a descrição de Gould do teste Army Beta, um dos testes que Terman ajudou a criar. O teste do Army Beta foi usado na Primeira Guerra Mundial para selecionar ao serviço militar recrutas que fossem analfabetos. 

Após a leitura dos principais trabalhos acadêmicos relacionados ao Army Beta, eu sabia que algumas das afirmações de Gould eram imprecisas. Mas eu não estava preparado para o nível de imprecisão, que era generalizada, assim que verifiquei cuidadosamente as alegações de Gould frente ao registro histórico. Eu descobri evidências esmagadoras de que quaisquer pretensões de Gould em ser “objetivo” — mesmo se definindo como “tratamento justo dos dados” — acabam como uma farsa. Em A Falsa Medida do Homem, Gould eleva seus preconceitos ao status de fato incontestável e busca deliberadamente esconder a verdade de seus leitores.

Examinadores do Army Beta durante a Primeira Guerra. As outras três imagens são de examinadores dando instruções e demonstrando como completar o teste. Fonte: Yerkes, 1921.


Um estudo de caso sobre a fraude de Gould
As distorções do registro acadêmico a respeito do Army Beta feitas por Gould vão de falsidades relativamente benignas a falsidades deliberadas. Seria impraticável catalogar todas aqui, então encorajarei os leitores interessados a conferirem minha análise completa. E o que torna a análise importante não é o Army Beta em si — há décadas o teste não é usado, seja em pesquisas ou na prática –, mas o fato de que a discussão do teste como levantada por Gould é emblemática da maneira como ele distorceu as evidências, ignorou dados que contradissessem suas opiniões, chegou a conclusões injustificadas e mentiu para seus leitores.

Uma das técnicas favoritas de Gould para enganar seus leitores foi de exagerar a importância de qualquer informação desfavorável aos testes de inteligência. Por exemplo, Gould enfatiza que as condições de teste às vezes estavam longe do ideal. Em comparação com programas de teste mais modernos, a administração do Army Beta (e de outro teste relacionado, realizado com homens alfabetizados, o Army Alpha) foi desorganizada e insatisfatória. O programa não tinha fundos suficientes e a velocidade com que começou não combinou com a infraestrutura disponível, que muitas vezes não conseguia acomodar todos os candidatos. Além disso, havia uma escassez frequente de examinadores qualificados. Nada disso está em disputa.

Gould aproveitou essa informação para relatar (p. 231) as condições do teste como “uma confusão, senão uma desgraça”, e alegou que houve uma invalidação do resultado do teste de muitos candidatos. A evidência na qual Gould se apoia resume-se a uma única citação do “chefe de teste em um campo” em que o oficial reclamou que as salas procedimentais estavam lotadas, o que dificultava que alguns candidatos ouvissem e entendessem as instruções. Porém, Gould escolheu convenientemente tal citação (que não era do chefe de teste) e ignorou 13 comentários favoráveis vindos de oficiais que estavam no mesmo local, incluindo as opiniões unanimemente favoráveis dos comandantes de cada campo.

A técnica de construir uma conclusão negativa com base nos menores indícios possíveis está estampada na análise de Gould das instruções do Army Beta, que ele chamou de “draconianas” e “diabólicas”. Ele também disse (p. 235) que “a maioria dos homens deve ter acabado profundamente confuso ou cagado de medo.” Entretanto, sua base para afirmar isso é uma única fonte secundária que alega que alguns homens fizeram um grande esforço em produzir determinadas respostas escritas para as perguntas do teste. Para Gould, “fazer um grande esforço” é, aparentemente, o mesmo que estar “cagado de medo”.

Ele consistentemente ignorou evidências que contradiziam sua afirmação de que os primeiros criadores de testes de inteligência reuniram dados sem sentido de testes inúteis. Ele deixou de mencionar que os criadores dos testes permitiram explicitamente que os administradores instruíssem os candidatos e fornecessem comandos em língua estrangeira, tudo para evitar que isso ameaçasse sua crença de que o teste do Army Beta era particularmente injusto com imigrantes. (Italiano e russo, duas das línguas mais comuns para imigrantes nos EUA à época, foram especificamente mencionados pelos autores do teste como sendo aceitáveis.) Gould não contou a seus leitores o quão forte era a evidência do poder de predição do Army Beta no desempenho do trabalho militar, um tópico contemplado em vários capítulos na única fonte primária consultada por ele.

Gould também mentiu abertamente em várias passagens de A Falsa Medida do Homem, o que inclui:
  • Os criadores do teste do exército tinham uma “opinião pobre sobre o que os recrutas Beta podiam entender em virtude de sua estupidez”. (p. 247)
  • A alegação de que um “grande número de homens” obteve pontuação zero no Army Beta. (p. 247)
  • Sua declaração de que os recrutas com pontuações extremamente baixas tiveram seus resultados “ajustados” para que recebessem uma pontuação negativa, e que esses recrutas eram “estúpidos demais para cumprir quaisquer dos itens”, além de serem “cretinos”. (p. 246)
  • Era “ridículo acreditar que o [Army] Beta medisse qualquer estado interno que merecesse o rótulo de inteligência.” (p. 240)

Nenhuma dessas afirmações encontra embasamento no registro histórico. Na verdade, em todos os casos, o que temos é a evidência oposta.

A análise de Gould sobre o Army Beta não é central à sua tese em A Falsa Medida do Homem e, caso fosse removida nas edições futuras do livro, seus principais argumentos permaneceriam intocados. Porém, as táticas usadas por ele para impugnar os criadores do Army Beta podem ser vistas em todos os capítulos do livro, e sempre de forma a difamar a pesquisa em inteligência. Ao longo do livro, Gould não demonstrou nenhum escrúpulo em exagerar fatos que sustentassem suas crenças, em omitir informações contrárias e cruciais e em mentir para seus leitores.  

Tudo isso mostra que, longe de um “tratamento justo dos dados”, a análise de Gould foi guiada inteiramente por suas noções preconcebidas sobre a pesquisa em inteligência — algo que ele via como socialmente danoso e irremediavelmente falho. Inadvertidamente, Gould provou que sua própria tese estava correta: às vezes os cientistas são guiados mais pelas suas crenças do que pelos dados.

É provável que Gould pensasse que suas “estratégias retóricas”, se é que posso chamá-las assim (que foram delineadas mais atenciosamente em outro lugar), encontravam justificativa em sua política pessoal nobre. Desse modo, ele não era diferente do fanático religioso que acredita que inventar histórias sobre milagres é aceitável desde que isso fortaleça a fé das outras pessoas e agregue mais crentes ao rebanho. Em vez de “mentir para Deus”, Gould estava mentindo pela justiça social.

Para aqueles que compartilham as visões políticas e sociais de Gould, existem estratégias melhores em promover uma agenda igualitária do que aderir a posições duvidosas sobre a pesquisa científica. Por exemplo, pessoas que temem que o novo campo da genômica possa reviver a eugenia e prejudicar as classes mais vulneráveis podem ajudar trabalhando para fortalecer a legislação de direitos humanos, assim garantindo que, em vez de limitados aos ricos, quaisquer avanços genéticos estejam disponíveis para todos os segmentos da sociedade. Igualmente, pessoas que se preocupam com a relação entre os marcadores de inteligência (como pontuações em testes de QI) e seus resultados na vida real podem apoiar políticas e tecnologias que tornem a sociedade mais adaptável àqueles indivíduos com um menor potencial de inteligência, visto que as burocracias estatais possibilitam uma melhora na qualidade de vida e nas condições de moradia dos cidadãos mais necessitados.

Uma nota final: embora eu enxergue Gould como o exemplo máximo de cientista preconceituoso em relação à pesquisa sobre inteligência, eu não estou isento quanto aos meus próprios vieses. É por isso que, em meu artigo sobre Gould e o Army Beta, meus coautores e eu somos completamente transparentes. Convidamos os leitores a verificar nossa interpretação das fontes primárias (fortemente referenciadas ao longo do artigo), que foi de onde baseamos nossa pesquisa. Também administramos o teste a uma amostra moderna para examinar se funcionava da mesma forma que outros testes de inteligência, registramos previamente nossas hipóteses e expectativas e também carregamos nossos dados em um repositório público. Acreditamos que a minimização do preconceito se faz por meio da transparência na coleta e análise de dados e não pelo apego a alegações espúrias de “objetividade” ou coragem intelectual.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.

Leia também...
"A Ciência pode até não ser neutra, mas isso não te dá o direito de ser enviesado", para entender as motivações morais e ideológicas de Gould.
Clique aqui
Leia também...
"Cientistas, índios e outros selvagens: uma história sobre corrupção acadêmica", para talvez a pior história de conduta acadêmica criminosa envolvendo Gould e seus colegas, os autointitulados “biólogos dialéticos” marxistas.
Clique aqui
Leia também...
"A sociologia tem medo da biologia — e sem boas razões", para entender o que é conhecido como biofobia.
Clique aqui
Leia também
"Por que biólogos odeiam biólogos?", para entender melhor a discussão entre Alcock e Gould.
Clique aqui
Previous
Next