Recentemente, todo o ciberespaço assistiu à reação do influenciador Matheus Donadelli, o Alphaspirit, ao ser chamado de “beta” em uma apresentação ao vivo. Matheus é um coach de desenvolvimento pessoal, e ele faz parte da subcultura conhecida como “manosfera“.

Para a manosfera, “beta” é o equivalente ao pior dos fracassados, e “alfa” assemelha-se ao melhor dos líderes. De primeira, esses termos até remetem a noções de hierarquia comumente usadas em ciências evolutivas comportamentais, mas uma inspeção mais cuidadosa nos leva a crer que seu uso pelos masculinistas não obedece a critérios muito rigorosos.

Hierarquias e rankings
Na natureza, como os recursos (comida, fêmeas) são escassos, a seleção natural encontrou um jeito de organizar os grupos de modo que eles não implodam. Aqui entra o ranking social. Em animais sociais, o ranking atua reduzindo a quantidade de brigas por alimento, parceiros sexuais e outros aspectos essenciais para a sobrevivência e a perpetuação genética, o que praticamente obriga que os indivíduos, em vez de lutarem na lógica do cada um por si, negociem melhor suas posições na hierarquia conforme a convivência. 

Existem basicamente duas vias para a ascensão social a partir dos rankings. A primeira é a dominância, que tem um enfoque majoritariamente físico, e a segunda é o prestígio, que tem um enfoque majoritariamente cognitivo ou intelectual. Como apontam Durrant & Ward (2015):

De acordo com o modelo de dominância-prestígio do status humano, a negociação das hierarquias sociais na nossa espécie é carregada por duas estratégias distintas […]: dominância e prestígio (Cheng & Tracy, 2014). Hierarquias de dominância são comuns entre primatas sociais e envolvem efetivamente o uso da força, ou da ameaça de força, a fim de obter notoriedade no ranking social e a partir daí usufruir dos benefícios dados a indivíduos de alto status. Portanto, as estratégias de dominância envolvem a deferência dos indivíduos de baixo ranking social pelos de alto ranking tendo como parâmetro o medo e a intimidação. Em contraste, embora o prestígio seja uma abordagem igualmente viável para alcançar status social, ele abrange a livre condescendência dos outros baseado em [níveis de inferiores de] habilidades, conhecimento e sucesso. Enquanto a dominância é filogeneticamente mais antiga no alcance das metas de status social, Henrich e Gil-White (2001) argumentam que o prestígio se tornou uma importante via para o ganho de status na evolução humana por causa do papel central do aprendizado cultural.

Sabe-se hoje que as hierarquias em humanos obedecem consideravelmente à variação cultural e ecológica, o que quer dizer que, em locais mais pobres e com códigos de honra mais explícitos, a via de dominância será calibrada melhor, enquanto que, em locais mais ricos e com uma melhor expectativa de vida, a de prestígio será. Isso quer dizer que, em humanos, se pegarmos o “alfa” de um ambiente baseado em hierarquias de dominância e colocarmos em um ambiente baseado em hierarquias de prestígio, ele será um “beta” — e vice versa. 

Enquanto isso, para o ideário da manosfera e como se pode constatar no vídeo da reação de Donadelli, o macho alfa parece ser basicamente aquele de melhor vigor físico e que mais impressiona, quando deveria ser aquele com melhor autocontrole e que melhor apazigua situações estressantes. 

A importância de manter a paz
Em uma manhã de sábado e a partir de uma interação social corriqueira, o então macho alfa Pimu se desentende com Primus, um subordinado ou beta. Primus não gosta nada do que acontece, e uma briga se inicia.

Effie e Vera, duas fêmeas, tentam desesperadamente conter a situação. Em vão. Primus grita por ajuda, e os outros machos, ao longe, vêm ver o que houve. Alofu, um macho adulto, se une a Primus contra Fanana e Darwin, dois outros machos que vêm em defesa de Pimu, que luta para manter sua posição.

Com medo de Alofu, Darwin se afasta. Fanana, agora sozinho, se une a Alofu. Pimu então se vê encurralado frente à união de Primus, Alofu e Fanana. Do meio dos três aparece Kalunde, um macho de idade avançada, que parte para cima de Pimu, em quem desfere socos potentes e mordidas de seus caninos afiados. Pimu, que antes desfrutava da posição de líder, agora encontra-se estirado no chão, ensanguentado, morto.

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Esse incidente aconteceu no Parque Nacional das Montanhas Mahale, na Tanzânia. Ele nos mostra que nem mesmo em chimpanzés o alfa (no caso, Pimu) pode se dar o luxo de ser um valentão sem arcar com as consequências. Pimu estava cercado de betas, indivíduos subordinados, e morreu nas mãos de Kalunde, que era muito mais velho. 

Se Pimu fosse mais carismático, fizesse mais alianças, cuidasse mais dos seus, resolvesse (em vez de causar) conflitos e, o mais importante, tivesse mais autocontrole, o desfecho teria sido diferente. Analogamente, foi pela falta de autocontrole de Donadelli que ele, de fato, se comportou como um “beta”. E por isso não é uma coincidência que o vídeo tenha viralizado como uma piada.

Por fim, deixo a palavra com Frans de Waal, um dos mais importantes biólogos comportamentais da atualidade e quem ajudou a popularizar o termo “alfa”: 

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.