Julia, seus amigos e familiares concordaram, tinha estilo. Quando, do nada, a chimpanzé de 18 anos começou a inserir longas e duras folhas de grama em uma ou ambas as orelhas e então passou o dia demonstrando seus novos acessórios claramente visíveis para o mundo, os outros chimpanzés do Santuário Chimfunshi ficaram deslumbrados.

Em pouco tempo, eles também estavam tentando: primeiro o filho dela, depois as duas amigas mais próximas, depois um amigo do sexo masculino, até 8 dos 10 chimpanzés do grupo, todos lutando, na frente de Julia, a Influenciadora  — e câmeras de vídeo ocultas  —  para conseguir imitá-la o mais fielmente possível. “Foi muito engraçado de se ver”, disse Edwin van Leeuwen, da Universidade de Antuérpia, que estuda a cultura animal. “Eles tentaram várias vezes, sem sucesso. Eles se estremeciam inteiros.“

O Dr. van Leeuwen tentou sozinho e entendeu o por quê.

“Não é uma sensação agradável enfiar um pedaço de grama tão fundo na orelha a ponto de ficar lá”, disse ele. Porém, depois que os chimpanzés dominaram a técnica, eles a repetiram com frequência, com orgulho, quase ritualisticamente, mexendo nas lâminas inseridas para garantir que os outros ficassem devidamente impressionados.

Julia morreu há mais de dois anos, mas o comportamento de orelha-de-grama  —  uma tradição que surgiu espontaneamente, se espalhou por redes sociais de maneira semelhante a um meme humano ou modismo  —  ainda vive entre seus seguidores no santuário. O comportamento é apenas um dos muitos exemplos surpreendentes de cultura animal que os pesquisadores divulgaram recentemente, como um vívido artigo recente da Science deixa claro. 

A cultura já foi considerada propriedade patenteada dos seres humanos: temos a arte, a ciência, a música e as compras online, enquanto os animais têm o instinto, a impressão e as respostas intrincadas. Mas essa atitude desdenhosa em relação às mentes não-humanas acaba se revelando mais profundamente equivocada a cada nova descoberta de humor ou capricho animal. A cultura, como muitos biólogos agora a entendem, é muito maior do que nós.

“Se você definir cultura como um conjunto de comportamentos compartilhados por um grupo e transmitidos através do grupo por aprendizagem social, então descobrirá que ela está disseminada no reino animal”, disse Andrew Whiten, psicólogo e neurocientista da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e autor do artigo. “Você a vê de primatas e cetáceos, de pássaros e peixes, e agora nós até a encontramos em insetos.”

A cultura “é outro mecanismo de herança, como os genes”, disse Hal Whitehead, da Dalhousie University, que estuda a cultura das baleias. “É outra maneira pela qual as informações podem fluir através de uma população.” Mas a cultura tem vantagens distintas sobre o DNA no que diz respeito ao ritmo e à direção do tráfego de informações. Enquanto a informação genética só pode se mover verticalmente (de pais para filhos), a informação cultural pode fluir vertical e horizontalmente (dos mais velhos para os jovens, dos mais jovens para os mais velhos, de par a par, tudo sem a necessidade de qualquer parentesco genético).

Em 1980, uma baleia-jubarte observadora descobriu que, batendo o rabo com força contra a água, os minúsculos peixes eram levados a se amontoar em pacotes organizados, adequados para uma captura e consumo relativamente fácil. A técnica de caça aprimorada, chamada de alimentação de rabo-de-cavalo, rapidamente se espalhou ao longo de linhas conhecidas dos grupos sociais das jubarte, auxiliados, suspeitam os pesquisadores, pelo talento dos cetáceos para mimetismo acrobático entre os membros de um mesmo grupo. Hoje, mais de 600 jubartes se alimentam pelo mecanismo de rabo-de-cavalo. “Isso só é possível pela transmissão social”, disse Whiten.

Da mesma forma, as cachalotes usaram crowdsourcing para enganar Ahab. Em um novo estudo examinando registros de caça às baleias do século 19, Whitehead e seus colegas determinaram que quando os baleeiros da Nova Inglaterra começaram a caçar uma população inexperiente de cachalotes no Pacífico norte, eles estavam essencialmente arpoando peixes em um barril, colhendo galões incontáveis do fino óleo de espermacete contido na cartola distintiva de um órgão acústico da baleia. Em apenas três a cinco anos, entretanto, muito antes que os baleeiros fizessem uma diferença na população de baleias, sua taxa de sucesso na caça despencou em quase 60%.

“As baleias estavam aprendendo rapidamente umas com as outras jeitos de evitar serem arpoadas”, disse Whitehead. Dica nº 1: os humanos não são como seu inimigo tradicional, a baleia assassina, então esqueça a velha estratégia de defesa de formar um círculo estreito com seus bebês protegidos no meio. “Isso só dá aos baleeiros algo para apontar seu arpão”, afirmou Whitehead. Dica nº 2: nade contra o vento rápido — os humanos odeiam remar contra o vento no oceano e logo desistirão da perseguição. Dica nº 3: encontre o seu Moby interior; mergulhe fundo, levante-se e quebre aquele navio baleeiro em pedaços.

Algumas diferenças entre tribos animais só fazem sentido se vistas através de lentes culturais. A pós-doutoranda de Harvard, Liran Samun, junto de seus colaboradores, têm seguido dois grupos vizinhos de bonobos na República Democrática do Congo. As áreas de vida dos macacos parecidos com chimpanzés se sobrepõem consideravelmente, e as tropas de bonobos se encontram e se misturam frequentemente, cuidando umas das outras, viajando, forrageando juntas e parando frequentemente para massagens pélvicas mútuas.

Mas existe uma distinção notável entre eles. Uma ou duas vezes por mês, os bonobos complementam sua dieta vegetariana com carne e, quando essas duas tropas se tornam carnívoras, procuram presas diferentes. Um grupo vai atrás de anomalurídeos, que se assemelham a esquilos voadores, enquanto o outro caça pequenos antílopes chamados bambis.

“Não importa onde estejam, mesmo quando o grupo está junto, eles mantêm a preferência”, disse Samuni. “Se uma caçada começa, segue as linhas do grupo: o grupo que persegue bambis persegue bambis, o grupo de anomalurídeos persegue anomalurídeos.” A Dr. Samuni sugere que a especialização da dieta serve para reduzir a competição entre vizinhos ou solidificar um senso de identidade de equipe. “Todos gostamos de sentir que pertencemos a um grupo e esse sentimento tem origens antigas”, disse ela.

Peter Richerson, da Universidade da Califórnia em Davis, que estuda a coevolução de genes e cultura em humanos, admitiu que já relutou em falar sobre cultura animal, mas mudou de ideia desde então. “Esta é uma época de ouro da cultura animal e dos estudos de aprendizagem não-humana”, disse ele.

Ele está particularmente impressionado com pesquisas recentes que mostram que as migrações animais, há muito consideradas a essência do instinto irracional em movimento, são, de fato, determinadas culturalmente. “Ovelhas da montanha precisam aprender suas migrações com outras ovelhas”, disse ele. Grous-americanos, um tipo de ave, são migradores de longa distância, e quando seu número diminuiu tão vertiginosamente ao ponto de não haver mais aves adultas para ensinar a rota às mais jovens, os conservacionistas entraram em cena e usaram aviões ultraleves como tutores.

Até mesmo os animais de fazenda podem ser verdadeiros repositórios de sabedoria cultural, como descobrem os fazendeiros ao venderem precipitadamente todo o rebanho. “As vacas aprendem a se localizar na fazenda e, se você começar de novo com novas vacas, elas não saberão onde está a água ou quais são os melhores lugares para se reunir”, disse Richerson. “Há muito mais coisas acontecendo na cabeça de uma vaca do que você imagina.”

E mais zumbido no gorro de uma abelha. Lars Chittka, da Queen Mary University of London, mostrou, junto de seus colegas, que os zangões podem ser treinados de maneira sucessiva para puxar uma corda e gradualmente descobrir uma fonte de açúcar. Muito poucas abelhas conseguiram descobrir o truque de puxar a corda por conta própria, mas uma vez que havia um indivíduo experiente entre elas, as outras abelhas aprenderam observando. Além disso, os pesquisadores relataram, na revista PLoS Biology, que a habilidade de puxar cordas pode ser transferida de colônia em colônia, mesmo em condições semi-naturais ao ar livre. A conclusão dos autores: o cérebro de uma abelha pode caber facilmente em uma lentilha, mas isso é o suficiente “para a disseminação cultural de habilidades incomuns.”

Tradução do texto Meet the Other Social Influencers of the Animal Kingdom, escrito por Natalie Angier.

Mário Pereira Gomes
Mário Pereira Gomes

Graduado em História (UFPE), transhumanista e divulgador científico.

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