Há décadas os cientistas sabem que chimpanzés fazem guerra e têm táticas especializadas para matar outros chimpanzés de territórios vizinhos,[1, 2] mas foi uma descoberta recente que chacoalhou a comunidade científica: eles foram vistos em guerra contra gorilas. Em um novo estudo publicado na Nature, uma equipe de pesquisadores alemães relata dois encontros letais entre as duas espécies.[3] Os dois encontros duraram cerca de 1 hora e o resultado foi a morte de dois gorilas — dois filhotes, os alvos mais fáceis.

Chimpanzés vivem em sociedades patriarcais de considerável parentesco genético que são divididas em subunidades e dependem de alianças entre machos reprodutores e subordinados, enquanto que gorilas vivem em pequenos grupos em que o alfa, maior e mais forte, chamado de costas-prateadas, mantém um harém de fêmeas e seus filhotes.[4] Apesar do tamanho e da força dos gorilas em comparação a um chimpanzé, foram as diferenças de organização social que se mostraram cruciais.

No primeiro incidente, tudo começou com patrulhas de território às 11:50. Patrulhas são comportamentos de quando um grupo de chimpanzés vasculha as fronteiras do território dominado atrás não de comida, mas de indivíduos estranhos. Ninguém pode fazer barulho ou se distrair durante a patrulha. Todos os indivíduos do grupo precisam ficar em silêncio atrás de barulhos estranhos e frequentemente de pé buscando movimentações incomuns no horizonte.

Dois machos de pé em uma patrulha no Parque Nacional Loango, o local em que o incidente aconteceu. Foto por Lara M. Southern.

Originalmente, eram 27 chimpanzés em patrulha. Em momentos posteriores, o grupo resolveu se dividir em um subgrupo formado por 9 indivíduos, que foram vasculhar outra área. Nessas circunstâncias, o mais comum é que encontrem chimpanzés de outras comunidades e, devido ao número reduzido em que os forasteiros costumam estar, o confronto acabe resultando na morte dos menos numerosos. Dessa vez, no entanto, eles se depararam com outro tipo de primata. Às 17:01, o grupo maior avistou um bando de gorilas à distância, que estavam em sua formação mais ou menos padrão: um costas-prateadas, três fêmeas adultas e um filhote.

Gritando violentamente, na mesma hora os chimpanzés foram correndo em direção aos gorilas. Em resposta, o costas-prateadas gritou de volta e defendeu sua família com os clássicos socos de peitoral. Durante a briga, o costas-prateadas agarrou uma fêmea do grupo de chimpanzés, a jogando no ar com toda força. Em seguida, o gorila foi cercado pelos 9 chimpanzés de um dos grupos rivais, e um desses chimpanzés, uma fêmea, partiu para cima dele com vocalizações agressivas, mordidas e socos. Foi quando ele e sua família afastaram-se.

Mas o filhote ficou para trás, e tudo indica que ele caiu dos braços de sua mãe. Ele foi avistado pelos pesquisadores sofrendo de dor, imóvel e deitado no chão, sendo inspecionado por um chimpanzé adulto chamado Littlegrey. O filhote atraiu a atenção dos chimpanzés restantes e, momentos depois, enquanto era possível ouvir os chamados de gorilas nas redondezas em resposta às vocalizações emitidas pelo juvenil, Littlegrey o observou atentamente, quase que demonstrando motivação frente aos gritos de desespero dos pais, e então se aproximou, sentiu seu cheiro e decidiu matá-lo com três socos.

O segundo incidente foi ainda mais emblemático. Tempos depois, em um outro dia, às 12:26, Freddy, um macho adulto, ficou de pé durante uma patrulha e conseguiu avistar um grupo de gorilas que residia em uma árvore próxima. Imediatamente ele avisou seus parceiros (os chimpanzés se comunicam com vocalizações específicas para cada coisa que veem ou percebem) e todos olharam atentos para a árvore (que não era uma árvore de frutos, o que também indica que eles queriam, antes de tudo, assassinar os gorilas). O grupo inteiro, no mesmo momento, moveu-se em direção ao local.

Naquela árvore haviam vários gorilas. Os pesquisadores relataram que “a maioria dos chimpanzés começou a subir nas árvores adjacentes, enquanto aproximadamente quatro chimpanzés machos adultos permaneceram no solo”, e que um chimpanzé adulto, Chenge, subiu em direção ao costas-prateadas e parou lentamente ao lado dele, que estava com uma fêmea e um filhote.

Inicialmente, o costas-prateadas não se intimidou e tentou manter sua posição com sinalizações de dominância, mas logo se viu em desvantagem e bateu em retirada com outros gorilas. Outros, não todos. Nas palavras dos pesquisadores: “Às 12h37, uma das duas fêmeas adultas, com seu filhote agarrado em sua barriga, desceu da árvore com um grupo de chimpanzés ao redor dela enquanto vocalizavam, gritavam, atacavam e balançavam os galhos” para intimidá-la. Os chimpanzés aterrorizavam ela: “Ela segurava o filhote na barriga e gritava, e o filhote gritava junto com ela”. Eles não conseguiram detê-la, nem seu filhote, e ela conseguiu fugir.

Para a felicidade dela, eles não tentaram segui-la. Mas porque foram distraídos pelos sons de mais gorilas nas proximidades. Os chimpanzés foram atrás e, a partir dali, foi observada uma “gorila fêmea adulta com um filhote menor em uma árvore com oito chimpanzés adultos, todos machos”, incluindo Chenge, Littlegrey e os demais. Era possível ouvir o costas-prateadas vocalizando ao longe, mas, novamente, nada disso amedrontou o grupo de chimpanzés e, dessa vez, tão pouco havia a possibilidade da fêmea ir embora. Eles não sairiam dali sem a morte daquela mãe, ou daquele filhote.

“A fêmea do gorila gritou e vocalizou” no momento em que os chimpanzés se aproximavam a uma distância de “aproximadamente cinco metros” e enquanto era cercada e constrangida. Ela conseguiu achar uma saída, e foi então que quatro chimpanzés, todos machos, a perseguiram, com ela driblando o dossel da floresta.

Os pesquisadores não conseguiram observar ou saber bem, mas às “12h50, a fêmea foi vista sem seu filhote, subindo em uma árvore próxima enquanto era vigiada por vários chimpanzés”. Ela foi embora sozinha, e sem seu filhote. Aparentemente, eles conseguiram o que queriam: pouco tempo depois da confusão, um chimpanzé chamado Cesar foi visto segurando o corpo do filhote, que encontrava-se morto com um corte profundo na barriga e os intestinos expostos. Posteriormente, outros chimpanzés disputavam o corpo do bebê gorila, e alguns deles consumiram as mãos e os órgãos do cadáver.

As observações suscitaram muitos questionamentos. Caso considerássemos que os chimpanzés estavam, de certa forma, mirando nos filhotes e caçando para se alimentar, fato é que os pequenos gorilas não estavam sozinhos. Os riscos, portanto, eram muito altos. Além disso, no primeiro incidente ninguém se alimentou do cadáver, e no segundo não houve o padrão de alimentação típica, começando pelos indivíduos de maior status.

Usualmente, quem primeiro come a caça é quem caçou, e quem caça costuma estar em hierarquias mais altas; somente depois disso é que os indivíduos de status inferior podem comer. No incidente 2, somente alguns indivíduos isolados e de baixo status alimentaram-se do bebê gorila, e não houve solicitação de partilha junto com todo o ritual característico como tende a acontecer. Ao lado do tipo de estratégia empregada pelo grupo, tudo isso torna frágil a hipótese de que os chimpanzés estavam apenas caçando.

Agora, o que naquele ambiente pode estar por trás dos dois incidentes? Partindo do fato de que chimpanzés se alimentam de relativamente os mesmos recursos que gorilas, uma hipótese plausível é que, como as duas espécies já haviam sido vistas convivendo pacificamente em períodos de abundância de comida e os incidentes violentos, em contraste, aconteceram em um período posterior de escassez que combinou com a sobreposição das necessidades de alimentação das duas populações, o gatilho ambiental pode ter sido a ecologia.

Esquema do local do incidente. As estrelas verdes marcam os dois encontros letais, enquanto que os círculos cinzas os encontros pacíficos anteriores.

Mas os pesquisadores salientam que pode não ser possível entender o que houve sem olhar para as motivações individuais, os gatilhos internos e as consequências adaptativas. Eles reafirmam as possíveis vantagens evolutivas da violência e salientam que, provavelmente, devido à sua natureza xenofóbica e agressiva, os chimpanzés agiram oportunisticamente enxergando gorilas como inimigos potenciais antes deles mesmos, os chimpanzés, serem vistos como inimigos pelos gorilas.

Nos dois incidentes os chimpanzés estavam em muito maior número. Eles usaram e abusaram de um princípio bastante conhecido em ecologia comportamental da violência letal: conforme maior o grupo, menores os riscos para o indivíduo. Os chimpanzés, pode-se dizer, aparentam conhecer bem os custos-benefícios da coalizão. “Macaco sozinho, fraco. Macaco junto, forte.” Já dizia César (o de Planeta dos Macacos, não o que segurou o cadáver do bebê gorila).

Na árvore evolutiva, chimpanzés são nossos parentes vivos mais próximos e de quem compartilhamos mais de 95% do DNA. Não só nosso genoma é similar, a organização social também: eles vivem em sociedades que se organizam em dinâmicas de fissão-fusão (os grupos subdividem-se e reorganizam-se posteriormente) sem residência fixa, e o mesmo se aplica às sociedades humanas tradicionais, incluindo as organizações de caça-coleta nômades (atuais ou pré-históricas, a organização em que todos os humanos viviam até o início da agricultura cerca de 12 mil anos atrás) e as sociedades de pequena escala (de agricultores nativos, como indígenas horticulturalistas).

Não é, por isso, uma grande surpresa que os padrões demográficos em relação à violência letal, envolvendo as táticas de emboscada ou reides e assassinato coalizacional, sejam similares em chimpanzés e humanos. A guerra de chimpanzés e gorilas certamente trará novas ideias aos antropólogos evolucionistas que estudam o assunto através de uma perspectiva biossocial e buscam descobrir o que temos de especial.

Àqueles que pensam que é impossível igualar a violência em humanos e não-humanos dizendo que somos diferentes por termos cultura, a cultura de sociedades tradicionais frequentemente está a favor da guerra. Ao passo que machos em chimpanzés mantêm alianças com base em parentesco, machos humanos podem ir além e manter alianças com base em ideologias, religiões e sistemas de casamento arranjado.[5, 6]

A guerra, no final das contas, seja em humanos ou em outros animais e independentemente de se em sociedades de pequena ou grande escala, só será completamente compreendida — e, em relação às nossas sociedades, extinta — através de um esforço coletivo que considere todas as nuances, sejam estas filogenéticas, funcionais, ontogenéticas, neurobiológicas, histórico-sociológicas ou ecológicas.[78] Não teremos outra coisa que não mais guerra se não unirmos forças a fim de compreender um fenômeno tão recorrente na história de animais sociais.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.

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