Existem muitos mal entendidos sobre inteligência. A começar pela tão aclamada, reverberada e falsa ideia de filósofos antigos de que os animais podem ser divididos em racionais e irracionais (com os seres humanos, é claro, sendo os primeiros), hoje é comum que, nos debates em relação à origem e expressão da inteligência, um lado diga que só o ambiente (a cultura, a instrução dos pais e dos amigos) importa. Mas isso está errado também.

A ideia de que os genes não influenciam na inteligência é tão surreal que a pessoa que afirma esse tipo de coisa provavelmente nunca pensou direito sobre o assunto. Basta um simples raciocínio para mostrar a razão dessa ideia estar errada. Se, por exemplo, genes não influenciassem na inteligência, não haveria como a seleção natural atuar sobre a inteligência; sendo assim, virtualmente todas as espécies que possuem as condições mínimas requeridas para terem inteligência teriam o mesmo nível de inteligência.

Sabem o que isso quer dizer? Que humanos e lagartixas teriam a mesma inteligência. Como é óbvio que esse não é o caso, então também é óbvio que genes influenciam na inteligência. Se alguém aceita que espécies possuem níveis diferentes de inteligência, este está implícita e necessariamente aceitando que os genes influenciam na inteligência. É simples assim.

Uma objeção a esse raciocínio seria dizer que “os genes influenciam na inteligência entre as espécies, mas não dentro de uma espécie”. Mas isso também não parece fazer sentido. Para haver diferenciação da inteligência entre espécies determinada por genes, necessariamente deve-se supor diferenciação da inteligência entre indivíduos de uma mesma espécie determinada por genes, dado que a seleção natural atua no nível dos indivíduos, estes que formam populações que se diferenciam umas das outras pelo acúmulo de mutações, sejam elas morfológicas, cognitivas (que dizem respeito à inteligência) ou as duas coisas, o que culmina, com o passar do tempo, no que os taxonomistas e sistematas chamam de “espécie”.

Corvos, por exemplo, entendem a lógica envolvida no fenômeno do deslocamento da água e têm a inteligência equivalente àquela de uma criança de sete anos.

Ao passo, porém, que é sabido que não existe uma definição aceita entre especialistas para o que “inteligência” significa, isso não pode nos impedir de buscar modelos e construtos teóricos que ajudem a esclarecer a natureza do fenômeno, como é o caso do quociente de inteligência (QI), se estamos falando de diferenças entre humanos, e dos experimentos comumente usadas em psicologia e cognição animal, se estamos falando de diferenças entre espécies não-humanas (e em relação aos humanos).

Todo construto sobre inteligência deve levar em conta não somente a genética, mas como a genética interage com o ambiente, incluindo o ambiente social, durante o amadurecimento individual, o que torna o atributo maleável à experiência. Apesar disso, a ideia de que todos possuem a mesma inteligência potencial e de que apenas o ambiente determina a inteligência individual atenta não só contra o senso comum (no dia a dia, todos sabemos distinguir os mais inteligentes dos menos), mas à própria teoria da seleção natural. Por fim, seja qual for a definição dada, a inteligência é necessariamente um atributo contínuo entre humanos e outros animais, variando, como disse Charles Darwin, em grau e não em tipo.

Texto escrito em co-autoria com Lucas Favaro.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.