Em 1739, o filósofo escocês David Hume escreveu que “quando uma hipótese qualquer […] é proposta para uma operação mental comum a homens e animais, devemos aplicá-la a ambos.” Um século depois, Darwin mostrou que todas as formas de vida têm uma origem em comum. Mesmo assim, para alguns, hoje em dia a ideia de que seres humanos e outros animais compartilhem características e habilidades como resultado de história evolutiva compartilhada, incluindo habilidades mentais, ainda parece difícil de engolir.

Por exemplo, numa crítica recente às abordagens evolutivas na cognição[1], os autores rotulam o antropomorfismo de Charles Darwin como “forçado”. Eles questionam aqueles que, como Darwin, acreditam que “em suas faculdades mentais, não existe diferença fundamental entre o homem e outros animais superiores.” Tentativas de identificar cognições como a humana nos outros animais nos levou invariavelmente ao exagero de interpretação dos dados, argumentam eles.

Eu discordo. A abordagem oposta – a rejeição a priori da continuidade entre humanos e outros animais – levou as pessoas a subestimar sistematicamente os outros animais[2]. No último século, psicólogos comparativos colocavam animais para fazer tarefas laboratoriais arbitrárias não relacionadas aos problemas que os animais enfrentam em seus habitats naturais. Este assim chamado “behaviorismo” nunca avançou nossa compreensão da cognição no mesmo grau que fez o darwinismo.

A teoria evolutiva prediz similaridades cognitivas baseadas nas relações entre espécies e seus habitats. Ela também nos diz que, se duas espécies proximamente aparentadas, seja um polvo e uma lula ou um ser humano e um chimpanzé, apresentam respostas similares em circunstâncias ambientais similares, a interpretação mais parcimoniosa é que a cognição envolvida seja similar também. Seres humanos e seus parentes próximos divergiram tão recentemente que, em termos evolutivos, dificilmente é antropomórfico admitir que a ancestralidade comum indique uma cognição comum.

Uma riqueza de evidências recentes apoia essa afirmação, a maioria delas descoberta precisamente porque as capacidades humanas foram tomadas como ponto de partida. Pensava-se que somente seres humanos eram capazes de reconhecer rostos pelas feições faciais, mas outros primatas também têm essa habilidade, e a neurobiologia subjacente parece ser a mesma[3]. Similarmente, bonobos, macacos dourados e uma variedade de mamíferos sociais beijam, abraçam, arrumam uns aos outros e transam após uma briga.

Chamar isso de “reconciliação”, um termo derivado da interação humana, tem se provado apropriado, dado que essas são dinâmicas que aliviam o estresse e reparam laços sociais[4]. Em contrapartida, esforços em identificar características que sejam exclusivamente humanas, como a de possuir cultura, imitar, planejar e ter a capacidade de adotar o ponto de vista do outro, raramente têm resistido ao escrutínio científico por mais de uma década.

Outros comportamentos podem ter uma história evolutiva ainda mais longa. Mesmo espécies distantemente aparentadas, como elefantes, golfinhos, primatas e pássaros, compartilham uma história evolutiva que pode explicar similaridades cognitivas como as instruções genéticas explicam as homologias profundas entre olhos e membros de moscas e roedores. Por exemplo, neurocientistas descobriram neurônios-espelho primeiro no gênero Macaca, mas desde então eles já foram descobertos em tico-tico-dos-pântanos, o que sugere o ancestral de aves e mamíferos já os possuía. Os neurônios-espelho disparam quando um animal realiza uma ação e a mesma ação é repetida por quem ouve ou vê, o que é considerado um mecanismo que facilita a empatia e a imitação humana.

Algumas similaridades comportamentais serão resultado de evolução convergente, em que as espécies evoluem capacidades cognitivas iguais de forma independente por terem sido expostas a pressões seletivas semelhantes. Por exemplo, aves que armazenam alimento precisam saber quando seus competidores podem vê-los. Eles usam táticas enganadoras parecidas com as dos chimpanzés e outros primatas que vivem em grandes grupos[5]. Da mesma forma, macacos-prego e corvos caledonianos, com necessidades de forrageio semelhantes, acabaram ambos por usar ferramentas. No entanto, mesmo aqui não podemos descartar o papel potencial da ancestralidade compartilhada, dado que os cérebros de aves e mamíferos não são nem de perto tão diferentes como se pensava.

Em suma, não existem boas razões científicas em se opor às abordagens evolutivas ou em ridicularizar as especulações de Darwin sobre a continuidade entre seres humanos e outros animais, incluindo um “senso de humor” – até mesmo a respiração ofegante de macacos foi recentemente demonstrada homóloga ao riso humano[6]. Qualquer um que já pôde observar primatas, elefantes ou corvos percebe que Darwin é quem ri por último.

Traduzido e adaptado do original Darwin’s last laugh, escrito pelo primatologista holandês Frans de Waal.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.