Sobre o texto
Esta é a tradução de “The Point of Men’s Cults“, publicado no Nautilus e da autoria do antropólogo em formação William Buckner. Ele mantém um site, Traditions of Conflict, que eu recomendo, onde organiza suas publicações. Aqui, o trecho que pode atuar como um sumário é aquele em que Buckner enfatiza o seguinte:

“Cada sociedade contemporânea deve seu desenvolvimento à predileção humana pela evolução cultural cumulativa. Dos menores bandos de caçadores-coletores e suas ferramentas mais simples aos maiores e mais avançados Estados-nação, em todos os lugares as pessoas utilizam o conhecimento transmitido de geração em geração, compartilhando entre si algo que nenhum indivíduo jamais poderia ter acumulado sozinho. Com os benefícios das trocas abertas de informação bem estabelecidos, a prevalência dos rituais secretos e da monopolização da informação através das culturas merece maior atenção.”

Uma coisa surpreendente quanto às sociedades secretas é o quão visíveis elas são. No registro etnográfico, elas podem ser encontradas em quase todos os lugares. Elas estão particularmente bem documentadas na Melanésia[1], na Amazônia[2] e na África Ocidental[3]. Existem sociedades secretas de sexo misto[4] e completamente femininas[5], mas aquelas que coagem fisicamente, enganam ritualmente e punem violentamente os estranhos e aqueles que violam tabus são geralmente compostas inteiramente por homens[6, 7]. Essas sociedades secretas exclusivamente masculinas são melhor descritas como um “culto dos homens” por causa de sua natureza excludente e sua forte conexão com os papéis sexuais masculinos. Esses cultos podem ser encontrados em sociedades de caçadores-coletores, horticultores e agricultores, embora muitos dos que foram descritos possam já ter deixado de existir[8].

O culto dos homens é uma conspiração à vista de todos. A “casa dos homens”, onde o culto se reúne, costuma ser a maior estrutura de uma aldeia, construída em uma posição de prestígio no centro ou no topo de um assentamento. Em aldeias em todo o continente do Alasca e nas ilhas do Estreito de Bering, por exemplo, o “kashim” (casa dos homens) era “o centro da vida social e religiosa”, escreveu o etnólogo Edward William Nelson[9]. É na casa dos homens que a maioria dos homens adultos e adolescentes iniciados passam a maior parte do tempo quando não estão caçando ou forrageando. Entre outras coisas, é um centro ritual para os homens, onde a parafernália sagrada do culto — muitas vezes máscaras e/ou instrumentos musicais — é mantida escondida de mulheres e crianças.

Casa dos espíritos Nggwal Bunafunei (casa dos homens). De The Cassowary’s Revenge (1997), por Donald Tuzin.

As punições por vê-los eram severas. Uma mulher que visse as flautas sagradas entre os Mundurucu da Amazônia, por exemplo, seria coletivamente estuprada[10], e em toda a Nova Guiné, mulheres que viram os objetos sagrados eram frequentemente executadas[11]. Membros do culto dos homens rodopiam seus rombos e tocam suas flautas em privado, escondidos das mulheres e crianças, que são informadas de que esses sons são as vozes de seus ancestrais. “Os cultos mascarados agiam […] como uma agência de controle social sobre mulheres, crianças, escravos e estrangeiros […]”, escreveu a historiadora Elizabeth Isichei, em A History of African Societies to 1870[12]. Mulheres nas sociedades Ekpe da Nigéria, que tinham máscaras especiais de várias cores, eram, “sob pena de morte […] impedidas de ver as máscaras negras”, observou o antropólogo H.P. Fitzgerald Marriott[13]. “Essas sociedades mantinham conhecimentos, canções e danças secretas que lhes davam o poder de emular espíritos malignos e demônios em rituais”, escreveu o antropólogo Ben Fitzhugh, ao descrever sociedades secretas em todo o Alasca. “É amplamente divulgado que as atuações dessas sociedades secretas foram projetadas para invocar o medo em mulheres e crianças.”

Desenhos das máscaras cerimoniais das populações do Alasca. De Eskimo about Bering Strait (1900), por Edward Nelson.
Traje ritual masculino de um Arapesh. De The Voice of the Tambaran: Truth and Illusion in Ilahita Arapesh (1980), por Donald Tuzin.

Ter esse poder geralmente tem um preço. Os meninos podiam ver sua iniciação no culto com uma mistura de euforia e medo, já que seriam obrigados a realizar uma variedade de rituais disfóricos ou tortuosos. Todas as sociedades aborígines no deserto ocidental da Austrália praticavam a subincisão, por exemplo. A parte inferior do pênis de um menino era cortada, expondo a uretra, que não cicatriza fechada. No estudo do antropólogo Robert Tonkinson sobre os caçadores-coletores de Mardu, ele escreveu que as subincisões eram “emblemas de plena masculinidade e prova de seu direito de participar da vida sagrada”. Outras práticas de iniciação comuns entre os cultos masculinos incluem reclusão ritual, piercings, espancamentos e indução de sangramento no nariz e no pênis.

Em algumas sociedades, como os Sâmbia (pseudônimo) da Nova Guiné, os ritos de passagem assumem um caráter explicitamente sexual. Os meninos começam a morar na casa dos homens por volta dos sete a 10 anos de idade. No terceiro dia de iniciação, após rituais envolvendo espancamentos, sangramento nasal e urtigas, os meninos são apresentados às flautas sagradas. Eles então esperam enfileirados enquanto um homem casado passa por eles, colocando a pequena flauta de bambu nos lábios de cada um. Os meninos são então ameaçados e intimidados a chupar a flauta, que é usada para “ensinar sobre a mecânica da felação homossexual”, escreveu o antropólogo Gilbert Herdt. Um ancião os diz: “Suponha que você não beba sêmen, você não será capaz de subir em árvores para caçar gambás; você não conseguirá escalar o topo das árvores pandanus para colher nozes. Você deve beber sêmen […] pode ‘fortalecer’ seus ossos.” Eles são ameaçados de morte se revelarem os segredos do culto.

Um iniciado mais velho mostra como chupar a flauta. De Sambia: Ritual, Sexuality, and Change in Papua New Guinea (2006), por Gilbert Herdt.

Há uma forte associação transcultural da guerra com rituais masculinos disfóricos e traumáticos[14], que são um componente recorrente dos cultos masculinos. O culto dos homens sambianos tem alguns paralelos claros com a sociedade guerreira da antiga Esparta, por exemplo, onde os meninos também eram separados de suas mães aos sete anos para viver na casa ou acampamento dos homens e passar por ritos e rituais disfóricos, incluindo relações sexuais com homens mais velhos[15].

Qual era o objetivo do culto dos homens? Em uma ampla variedade de espécies de mamíferos, incluindo humanos, os machos têm uma tendência relativamente comum de buscar monopolizar o acesso aos recursos — alimento, território, fêmeas, conhecimento — que podem aumentar seu sucesso reprodutivo[16][17][18][19]. A presença da guerra e de trocas matrimoniais com inimigos oferecem algumas explicações funcionais plausíveis. Os ritos e rituais secretos podem ajudar a socializar os meninos para que se tornem guerreiros eficientes, e as trocas matrimoniais com grupos inimigos ou vizinhos podem ser úteis para evitar o incesto e forjar alianças, além de ajudarem a explicar algumas das desconfianças e inimizades institucionalizadas nessas sociedades entre homens e mulheres[20], as quais os homens muitas vezes consideram contaminadas ou imundas. “A retórica secular dos homens e as práticas rituais retratam as mulheres como perigosas e poluidoras inferiores, das quais eles devem desconfiar ao longo da vida”, escreveu Herdt sobre os Sâmbias. Quanto às sociedades no Alasca, Nelson escreveu: “Durante a menstruação, as mulheres são consideradas impuras e os caçadores devem evitá-las ou se tornarem incapazes de garantir a caça”. Este pode ser um exemplo de normas sociais que exploram, ou repropositam, a reação de repulsa natural do ser humano[21].

Os cultos masculinos também parecem permitir que os homens mais velhos controlem a sexualidade dos mais jovens, reduzindo a competição reprodutiva e aumentando sua própria certeza de paternidade. Como é comum entre os machos mamíferos, os homens desenvolvem estratégias para aumentar a probabilidade de que os filhos das mulheres com quem acasalam sejam seus. Sobre os Ilahita Arapesh, o antropólogo Donald Tuzin escreveu: “[…] havia um tabu específico, forte e aparentemente eficaz, contra o contato sexual antes do casamento. Essa prescrição foi muito mais forte para os homens do que para as mulheres […]”[22]. Os caçadores-coletores Ache do Paraguai não têm um culto dos homens; no entanto, sua organização social exibe algumas semelhanças a esse respeito. Os meninos são proibidos de se envolver em atividades sexuais até que tenham passado por ritos de iniciação conduzidos por homens mais velhos, como piercing no lábio e brigas de porrete simuladas[23]. Em muitas sociedades aborígenes australianas, os rapazes são impedidos de se casar, enquanto os homens mais velhos podem ter várias esposas jovens[24].

O fato de que os cultos masculinos podem ser encontrados em tantas e diversas sociedades de pequena escala pode apontar para uma origem histórica profunda. Os arqueólogos Oliver Dietrich e Jens Notroff especularam que Göbekli Tepe, um local na Turquia com cerca de 12.000 anos de idade, pode representar um santuário de culto masculino. Os antropólogos D’Ann Owens e Brain Hayden especulam que as sociedades secretas (não necessariamente cultos masculinos) podem ser rastreadas até o Paleolítico Superior, e eles argumentam que as cavernas durante esse mesmo período foram usadas para iniciar as crianças da elite em sociedades secretas[25]. Em The Nature of Paleolithic Art, R. Dale Guthrie argumentou que os meninos adolescentes faziam a maior parte da arte em cavernas do Paleolítico Superior[26]. A arte paleolítica geralmente consistia em cenas de caça, mulheres nuas e imagens fálicas, o que parece consistente com a noção — difícil de testar — de que foram feitas como parte de uma iniciação em um culto dos homens.

Os cultos masculinos não são universais, mas são recorrentes ao longo da história e através das culturas. Essa pervasividade nos diz algo importante sobre evolução e comportamento humano: quando recursos importantes — seja riqueza, acesso a parceiros sexuais ou mesmo conhecimento — podem ser monopolizados pela força, os homens parecem mais propensos a formar os tipos de coalizão agressiva e dominadora exibida pelos cultos masculinos. Entendê-los é fundamental à medida que as pessoas continuam a desenvolver e manter instituições políticas e sociais mais inclusivas, caracterizadas pelas normas e pelo Estado de direito, dois fatores que desencorajam a violência e o autoritarismo.



Referências
1. Herdt, G. 2003. Secrecy and Cultural Reality: Utopian Ideologies of the New Guinea Men’s House. Ann Arbor: University of Michigan Press.
2. Murphy, R. F. 1959. Social structure and sex antagonism. Southwestern Journal of Anthropology
3. Butt-Thompson, F.W. 1929. West African Secret Societies. High Holborn London: H. F. & G. Witherby.
4. Elmendorf, W.W. 1948. The Cultural Setting of the Twana Secret Society. American Anthropologist.
5. Bosire, O.T. 2012. The Bondo secret society: female circumcision and the Sierra Leonean state PhD Thesis: University of Glasgow
6. Herdt, G. 1982 Rituals of Manhood: Male Initiation in Papua New Guinea. Berkeley: University of California Press.
7. Webster, H. 1908. Primitive Secret Societies. New York: The Macmillan Company.
8. Certamente há uma variação significativa entre essas sociedades. No entanto, a presente descrição é consistente com o registro de numerosos cultos masculinos, particularmente na Melanésia e na Amazônia.
9. Nelson, E.W. 1900. The Eskimo about Bering Strait. Extracts From the Eighteenth Annual Report of the Bureau of American Ethnology. Washington: Government Printing Office
10. Murphy, Y. & Murphy, R. 1985. Women of the Forest. New York: Columbia University Press.
11. Hays, T.E. 1986. Sacred Flutes, Fertility, and Growth in the Papua New Guinea Highlands. Anthropos
12. Isichei, E. 1997. A History of African Societies to 1870. United Kingdom: Cambridge University Press
13. Fitzgerald Marriott, H.P. 1899. The Secret Societies of West Africa. The Journal of the Anthropological Institute of Great Britain and Ireland
14. Sosis, R. et al. 2007 Scars for war: evaluating alternative signaling explanations for cross-cultural variance in ritual costs. Evolution and Human Behavior
15. Herdt, G. 2006. The Sambia: Ritual, Sexuality, and Change in Papua New Guinea. Belmont: Wadsworth publishing.
16. Jaeggi, A.V. et al. 2016. Obstacles and catalysts of cooperation in humans, bonobos, and chimpanzees: behavioural reaction norms can help explain variation in sex roles, inequality, war and peace. Behaviour
17. Nettle, D. & Pollet, T.V. 2008. Natural Selection on Male Wealth in Humans. The American Naturalist
18. Betzig, L. 2012. Means, variances, and ranges in reproductive success: comparative evidence. Evolution and Human Behavior
19. Glowacki, L. et al. 2017. The evolutionary anthropology of war. Journal of Economic Behavior & Organization
20. Ember, C. 1978. Men’s fear of sex with women: A cross-cultural study. Sex Roles
21. Curtis, V. et al. 2011. Disgust as an adaptive system for disease avoidance behavior. Philosophical Transactions of the Royal Society B
22. Tuzin, D. 1997. The Cassowary’s Revenge. Chicago: University of Chicago Press.
23. Hurtado, A.M., & Hill, K., 1996. Ache Life History: The Ecology and Demography of Foraging People. New York. Routledge
24. Bodley, J.H. 1994, 2017. Cultural Anthropology: Tribes, States, and the Global System. Lenham: Rowman & Littlefield.
25. Owens, D. & Hayden, B. 1997. Prehistoric Rites of Passage: A Comparative Study of Transegalitarian Hunter – Gatherers. Journal of Anthropological Archaeology
26. Guthrie, R.D. 2005. The Nature of Paleolithic Art. Chicago: University of Chicago Press.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.

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