Fotos de si mesmo transmitem mais hoje em dia do que os instantâneos na era Kodak. A maioria das pessoas com mentalidade digital publica e atualiza continuamente as próprias fotos em sites profissionais, de mídia social e de namoro, como LinkedIn, Facebook, Match.com e Tinder. Para o bem ou para o mal, os espectadores tendem a fazer julgamentos instantâneos sobre a personalidade ou caráter de alguém a partir de uma única imagem. Como tal, pode ser uma tarefa estressante selecionar a foto que transmite a melhor impressão de nós mesmos. Para aqueles de nós que buscam parecer amigáveis e confiáveis em relação aos outros, um novo estudo ressalta um conselho antigo e animado: faça uma cara feliz.

Uma série de experimentos recentemente publicada por neurocientistas cognitivos da Universidade de Nova York está reforçando a relevância das expressões faciais para a percepção de características como confiabilidade e simpatia. Mais importante, a pesquisa também revelou a descoberta inesperada de que as percepções de habilidades como força física não dependem das expressões faciais, mas sim da estrutura óssea facial.

O primeiro experimento da equipe disponibilizou fotografias de 10 pessoas diferentes com cinco expressões faciais únicas cada. Os participantes do estudo avaliaram o quão amigável, confiável ou forte a pessoa em cada foto parecia. Um grupo separado de sujeitos pontuou cada rosto em uma escala emocional de “muito zangado” a “muito feliz”. E três especialistas não envolvidos em nenhuma das duas avaliações anteriores, para evitar resultados confusos, calcularam a proporção entre largura e altura facial para cada rosto. Uma análise revelou que os participantes geralmente classificaram as pessoas com uma expressão feliz como amigáveis e confiáveis, mas não aquelas com expressões de raiva. Surpreendentemente, os participantes não classificaram rostos como indicativos de força física com base na expressão facial, mas classificaram rostos que eram muito amplos como os de um indivíduo forte.

Em uma segunda pesquisa, a expressão facial e a estrutura facial foram manipuladas em rostos gerados por computador. Os participantes avaliaram cada rosto para os mesmos traços da primeira pesquisa, com a adição de uma classificação de calor. Novamente, as pessoas pensaram que uma expressão feliz, mas não irritada, indicava amizade, confiabilidade  —  e, neste caso, cordialidade. Os pesquisadores então mostraram dois conjuntos adicionais de participantes com os mesmos rostos, desta vez com áreas relevantes para as expressões faciais obscurecidas ou com a largura cortada. Na primeira variação, para rostos sem pistas emocionais, as pessoas não podiam mais perceber traços de personalidade, mas ainda podiam perceber a força com base na largura. Da mesma forma, para aqueles rostos sem pistas estruturais, as pessoas não podiam mais perceber a força, mas ainda podiam perceber traços de personalidade com base nas expressões faciais.

Em uma terceira interação da pesquisa, os participantes tiveram que escolher quatro faces de uma linha de oito faces variadas em termos de expressão e largura que eles poderiam selecionar como seu consultor financeiro ou como o vencedor de uma competição de levantamento de peso. Como era de se esperar, os participantes escolheram rostos com expressões mais felizes como consultores financeiros e selecionaram rostos mais amplos como pertencentes a campeões de levantamento de peso.

Em uma pesquisa final, os pesquisadores geraram mais de 100 variações de uma “face básica” individual, variando as características faciais. Os participantes viram duas faces ao mesmo tempo e, em seguida, escolheram uma como confiável ou de alta capacidade, ou como um bom consultor financeiro ou vencedor do levantamento de peso. Usando esses resultados, um computador criou um rosto médio para cada uma dessas quatro categorias, que foi mostrado a um conjunto separado de participantes que tiveram que escolher qual rosto parecia mais confiável ou mais forte. A maioria dos participantes considerou as médias geradas por computador boas representações de confiabilidade ou força  —  e geralmente viam o rosto do “consultor financeiro” médio como mais confiável e o rosto do “levantador de peso” como mais forte. As descobertas de todas as quatro pesquisas foram publicadas no Personality and Social Psychology Bulletin em 18 de junho de 2015.

Podemos alterar nossas características faciais de maneira que pareçamos mais confiáveis, mas não temos a mesma capacidade de parecer mais competentes. Um rosto que lembra uma expressão feliz, com sobrancelhas levantadas e boca curvada para cima, é provável que seja visto como confiável, enquanto um rosto que lembra uma expressão de raiva, com sobrancelhas caídas, é provavelmente visto como indigno de confiança. No entanto, os julgamentos de competência são baseados na estrutura facial, um traço que não pode ser alterado, com rostos mais largos vistos como mais competentes. Crédito: Imagem cortesia de Jonathan Freeman e Eric Hehman.

Tomados em conjunto, os resultados sugerem que as expressões faciais influenciam fortemente a percepção de características como confiabilidade, simpatia ou cordialidade, mas não a habilidade (força, nesses experimentos). Por outro lado, a estrutura facial influencia a percepção da capacidade física, mas não as intenções (como simpatia e confiabilidade, neste caso). Além disso, as decisões que envolvem adivinhar as possíveis intenções de uma pessoa, como a quem você confiaria sua gestão de dinheiro, são mais fortemente influenciadas pela expressão facial, enquanto aquelas baseadas na capacidade física, como em quem você apostaria em um evento esportivo, são mais fortemente influenciado pela estrutura facial.

Estudos anteriores também mostraram o efeito de pistas faciais em como percebemos e interagimos com os outros, mas este novo trabalho revela como as percepções da mesma pessoa podem variar muito, dependendo da expressão facial dessa pessoa em qualquer momento. Essa variabilidade “tem implicações tanto para as pessoas que se apresentam quanto para os observadores nas interações sociais”, diz Jonathan Freeman, neurocientista social da Universidade de Nova York e autor sênior do estudo. Portanto, podemos considerar o impacto de nossas expressões faciais nas fotos que postamos online. Ao mesmo tempo, em um mundo ideal, as pessoas que olham para nossas fotos nos dariam o benefício da dúvida e hesitariam em fazer julgamentos espontâneos com base apenas em uma única imagem.

As descobertas acima trazem uma grande advertência: apenas rostos masculinos foram mostrados aos participantes. Os pesquisadores escolheram essa abordagem porque estudos anteriores envolvendo a proporção da largura facial com a altura mostraram que uma largura facial maior está frequentemente associada a níveis mais altos de testosterona, bem como a agressividade e força aumentadas em homens. Estudos de largura e altura facial em mulheres mostraram resultados mistos, portanto, apresentar aos sujeitos do estudo uma mistura de rostos masculinos e femininos teria produzido resultados inconclusivos. Apesar da relativa falta de evidências sobre como a estrutura facial influencia a percepção dos rostos das mulheres, tem havido retratos humorísticos de especulações populares. Pesquisas futuras, entretanto, são necessárias para estabelecer definitivamente se tais padrões existem.

Além disso, os pesquisadores referem-se a “capacidade” ao discutir a força física no estudo. Não foram feitas medições específicas, por exemplo, das percepções de capacidade intelectual ou capacidade de desempenho em determinados cargos. Essas habilidades são mais abstratas e, portanto, podem contar com uma combinação de diferentes pistas faciais estáticas e dinâmicas, explica Freeman, portanto, seria difícil testar essas relações definitivamente.

Em nossa vida cotidiana, este estudo e outros deixam claro que, embora possamos tentar influenciar as percepções dos outros sobre nós com fotos nos mostrando vestindo roupas elegantes ou exibindo uma atitude autoconfiante, o determinante mais importante da percepção dos outros e consequente comportamento em relação nós são nossos rostos.

Então, da próxima vez que você quiser ganhar a confiança de alguém, tente um sorriso e um rosto feliz. Mas para aquelas pessoas que esperam ser escolhidas para um jogo de futebol, basquete e assim por diante, não se preocupe com sua expressão facial. O melhor que você pode fazer é esperar que você tenha um rosto mais largo e então deixar que suas proezas físicas falem por si.

Tradução do texto Your Facial Bone Structure Has a Big Influence on How People See You, escrito por Jessica Schmerler e disponível em Scientific American.

Mário Pereira Gomes
Mário Pereira Gomes

Graduado em História (UFPE), transhumanista e divulgador científico.

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