Os hadzas possuem o DNA mitocondrial mais antigo já testado em uma população humana — eles podem estar entre as linhas mais antigas, no sentido de “mais intocadas”, do planeta. Eles vivem no interior da Tanzânia, a 50 milhas do desfiladeiro de Olduvai, uma área chamada de “Berço da Humanidade” por conta do número de fósseis de hominídeos encontrados no local e do sítio de Laetoli, famoso pelas pegadas preservadas em cinzas vulcânicas de 3.7 milhões de anos atrás (o segundo local com a evidência mais antiga conhecida do bipedalismo, a capacidade humana de andar em pé).

Evidências arqueológicas estimam que a área tem sido ocupada por caçadores-coletores, como os hadzas, desde pelo menos o início da Idade da Pedra, há 50.000 anos. Um povo que não pratica agricultura, nem pecuária e não armazena alimentos. Eles forrageiam, o que quer dizer que não há nada para comer pela manhã e eles andam na savana por algumas horas e colhem o que precisam — frutas, mel ou um pássaro, tubérculos (plantas que possuem raízes grossas e comestíveis) e baobás picantes.

Os hadza são os últimos dos primeiros, um laboratório vivo para a ecologia comportamental, a psicologia e a antropologia evolucionistas. É possível encontrar vários universais humanos  entre eles: as avós também auxiliam na criação dos netos (ao redirecionar a energia para um prole de seus filhos, as avós garantem a perpetuação de seus genes através das gerações mais jovens e torna adaptativa a própria idade pós-reprodutiva); os melhores e mais generosos caçadores e fornecedores de recursos são os parceiros mais desejados pelas mulheres (com maior mate value); os homens são melhores em habilidades espaciais do que as mulheres e as mulheres são melhores em memória topográfica; o risk taking (comportamento de risco) dos homens hadza é maior do que o das mulheres mesmo na infância. Além disso, a força do tronco superior de um hadza é um prognóstico de caça e sucesso reprodutivo, exatamente o que esperaríamos de uma espécie sexualmente dimórfica como o Homo sapiens.

Casal hadza em busca de comida. Ela usa um graveto com lâmina para cavar tubérculos e o marido traz um machado para extrair o favo de mel dos troncos das árvores e um arco e flechas para caça e defesa. Matthieu Paley/National Geographic
Caçador hadza munido de arco e flechas saltando pedras em mais uma missão. Matthieu Paley/National Geographic
Expressão impressionante de um caçador hadza experiente. Matthieu Paley/National Geographic
Os Hadza caminham na savana por algumas horas e reúnem o que precisam de sustente para o dia. Matthieu Paley/National Geographic
O despojo do dia para os caçadores Hadza inclui um galago, popularmente conhecido como "bebê do mato". Matthieu Paley/National Geographic
Caminhada para coleta de tubérculos, alimento básico dos hadzas, uma tarefa feminina. Matthieu Paley/National Geographic

A cooperação social é fundamental para eles, incluindo o cuidado cooperativo da prole (teoria do apego em grupo). Para aqueles que pensam que o amor é uma invenção moderna, a paixão, intimidade e comprometimento também são os fatores principais que aumentam o sucesso reprodutivo dos hadza. Homens hadza com tom de voz mais grave, um indicativo de tamanho de pregas vocais e distribuição de testosterona, são mais bem sucedidos. Entre eles, a competição também é mais vista entre os homens que entre mulheres. As redes sociais dos hadzas exibem propriedades importantes também vistas nas redes sociais modernas, como laços de intimidade, transitividade, reciprocidade e homofilia. Eles também compartilham da média de atratividade e simetria faciais do restante do mundo, o que é um forte indício a favor da tese de que a percepção do que é uma face bela é universal. Para os hadza, o conceito de caráter moral também está presente, mas com percepções diferentes de quem possui.

Importante dizer que, apesar de serem uma sociedade relativamente intocada, os hadzas não são “fósseis vivos”. Eles também mudaram genética e culturalmente ao longo dos milênios e adotaram, há muito tempo, novas ferramentas, como pontas de flechas e panelas. Ainda assim, em sua savana rica, eles são uma visão única do modo de vida e das pressões seletivas que permitiram o surgimento dos humanos modernos, e isso nos possibilita até mesmo comparar o cérebro de um hadza ao de um novo iorquino de linhagem misturada. Infelizmente, o turismo e o avanço dos agricultores são fatores que estão extinguindo a cultura hadza, e hoje eles estão mais restritos em número e forçados à aculturação.

Os hadzas são mais felizes que os europeus modernos. Se existe neles uma diferença cultural que serve como uma lição para o homem civilizado, é que, na sociedade hadza, o conceito de “preocupação” como algo relacionado ao futuro ou ao passado simplesmente não existe. Seguindo os passos de seus ancestrais, eles realmente vivem o momento. Pode parecer contraditório, mas quando o foco é na rotina diária, a coisa mais natural a ser feita é não preocupar-se com o futuro; assim, não há necessidade de “alinhamento dos chakras” para se manter centrado ou mindfulness para experimentar o “aqui e agora”. Os hadzas, sem pensar demais, mantiveram o foco inalterado ao seu próprio modo de vida no decorrer de muitos anos. Eles apenas são.

Samuel Fernando
Samuel Fernando

É biólogo, estudante de engenharia de computação e vinculado a um grupo de pesquisa em neurociência computacional na UFABC. Ele é um visionário e está interessado em promover e acelerar a nanotecnologia molecular e a futura nanorobótica.