Nossos leitores têm nos pedido para falar sobre o extremo oposto do religioso essencialista que criticamos um tempo atrás.[1] Ficamos curiosos sobre quem poderia ser o reflexo quase perfeito de alguém que pensa que as coisas têm essências rígidas e funções teleológicas imutáveis e, para a nossa surpresa não tão surpreendente assim, tratava-se de uma página partidária da ideologia marxista.

Os famosos marxistas, que juram que não negam as capacidades inatas e, ao mesmo tempo, creem que as condições do meio norteiam toda a psicologia humana, a qualquer fim, desde que as pessoas tomem as rédeas da própria situação através da “consciência de classe”. A postagem deles viralizou por defender que o que se conhece por natureza humana não existe, que são as “condições materiais” é que “determinam a natureza humana”.[2] Como este é um tema caro às ciências evolutivas comportamentais e recorrente nas redes sociais, resolvemos falar sobre isso.

Primeiramente, gostaríamos de esclarecer que estamos de acordo com o ponto levantado pelos colegas. Mas parcialmente de acordo. As condições materiais inegavelmente influenciam a organização humana. A própria história a partir da sedentarização oferece exemplos bastante explícitos de como os costumes, as preferências individuais, as normas de conduta e comportamento social, tudo varia enormemente de lugar para lugar e de época para época. Mas não arbitrariamente, e isso não é nem, literalmente, metade da história. Vamos por partes.

O meme original. Fonte: https://bit.ly/3HzVTmV

Graças a Marx, a visão que enxerga a natureza humana como essencialmente imune às condições socioeconômicas não é mais aceita pela comunidade científica geral e nem pelo bom senso. Um japonês fala japonês, não inglês, e os homens de várias culturas asiáticas não se cumprimentam apertando as mãos como no Brasil. De forma similar, os nativos brasileiros da etnia Tupinambá, quando foram descritos pela primeira vez, tinham um senso de solidariedade muito mais aguçado do que aquele de um cidadão português, que na mesma época morava em uma capital e foi quem catalogou o modo de vida dos indígenas.

Se a história, a sociologia, a economia e demais ciências humanas hoje admitem que é a variação no modo de produção a responsável por grande parte da variação no comportamento humano, Marx tem um enorme mérito por isso. Ele foi muito importante em ter jogado para escanteio o pensamento filosófico alemão de sua época, que via o desenvolvimento humano de maneira idealista, centrado no “espírito” humano e livre das forças econômicas e sociais. Ele resumiu seu materialismo quando disse que a “essência humana é não uma abstração inerente em cada indivíduo isolado; ela é, na verdade, a totalidade de suas relações sociais”,[3] e quando alegou também que “não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, seu ser social que determina sua consciência.”[4]

Mas nem tudo são flores. O pensamento marxista motivou um reducionismo quase paradigmático nas ciências sociais dos dias de hoje, de modo que os pesquisadores da área são amplamente orientados a pensar que somente as causas econômicas e históricas determinam o comportamento dos humanos em sociedade. Isso está agora tão arraigado nas Humanidades que alguns críticos, vindo das próprias ciências humanas, chamam esse tipo de coisa de Modelo Padrão das Ciências Sociais.[5][6] Enquanto isso, os marxistas continuam a atacar uma natureza humana que foi refutada pelo próprio Marx e que ninguém nem com cinco neurônios acredita mais.

Para a época de Marx e até pouco tempo atrás, o materialismo histórico fazia completo sentido. As pessoas não conheciam os fatos da genética, nem sabiam dizer o que um instinto significa e nunca definiriam “história evolutiva” ou “filogenia” nem se lessem uma livraria inteira. Todos esses são conhecimentos que só foram se consolidar mais de um século depois,[7] além de que novas pesquisas saem todo ano.[8] Vamos direto ao ponto, pois vocês devem estar querendo saber qual seria, afinal de contas, a teoria da natureza humana mais bem suportada por evidências.

Apesar de haver certo debate entre filósofos da biologia sobre como, quando e se definir natureza humana, a ciência atualmente enxerga o termo como um contínuo de traços de comportamento e psicologia esperados de uma espécie hominídea sexualmente dimórfica, em que machos e fêmeas diferem fisiológica, anatômica e comportamentalmente. Hoje sabemos que humanos, e machos e fêmeas separadamente, têm uma história filogenética de mais de meio bilhão de anos como animais, de mais de 180 milhões de anos como animais mamíferos, de 60 milhões de anos como animais mamíferos primatas e, finalmente, de somente 12 mil anos como animais mamíferos primatas que agora são também pessoas que descobriram como domesticar gado, plantar e colher cereais, a construir cidades e promulgar leis. É quando a sedentarização se inicia e a análise marxista começa. Nós avisamos que a história a qual Marx tinha em mente não era sequer metade da história.

Para que se tenha uma noção do quão ultrapassado é o pensamento marxista se visto de maneira anacrônica, se não pudéssemos definir seres humanos para além de sua atividade cultural e econômica historicamente localizada, a “totalidade das relações sociais”, pelo mundo inteiro e independente do tipo de sociedade (se de caçadores-coletores, se de pastores, de agricultores, dentre outras), as pessoas não teriam as mesmas emoções diante dos mesmos contextos e nem esboçariam as mesmas expressões faciais[9] (o que também acontece entre cegos[10]), não nasceriam, a menos que sejam autistas, aptas a desenvolver o que é conhecido como mentalização, a capacidade de interpretar corretamente estados mentais dos outros somente pela observação,[11] e não sentiriam nojo e repulsa em circunstâncias similares.[12]

Igualmente, os homens não seriam os mais ávidos a participar de atividades arriscadas, não seriam os maiores responsáveis pela guerra, mais de 90% dos autores de crimes violentos e nem os mais ambiciosos e dispostos a estar em posições de poder[13, 14, 15, 16, 17, 18]. As mulheres, por outro lado, não seriam o exato oposto: muito mais voltadas às pessoas e aos próprios filhos, muito menos violentas e muito mais avessas aos riscos.[19, 20, 21, 22, 23] Também não poderíamos esperar que tudo isso se repetisse durante a infância e nem em outras espécies de primatas proximamente aparentadas de nós, mas se repete.[24, 25].

Não deveríamos sequer considerar a possibilidade das pessoas buscarem favorecer seus parentes de sangue sempre que pudessem, e o nepotismo não teria que surgir tão fácil quanto o nascer do Sol, mas é, feliz ou infelizmente, o que a realidade nos mostra.[26] Essas e dezenas de outras características evoluídas podem ser vistas com mais detalhe também em The Primate Origins of Human Nature, do primatólogo Carel van Schaik,[27] e em Male, Female: The Evolution of Human Sex Differences, do psicólogo desenvolvimental e cognitivo David C. Geary.[28]

“The Primate Origins of Human Nature”, de van Schaik. Uma boa revisão do que hoje significa natureza humana.

Uma objeção comum, e um tanto desesperada, seria dizer que nada do que foi dito aqui invalida que humanos, mas não os outros animais, tenham a capacidade de construir um mundo livre de injustiça. Porém, embora um mundo mais justo seja um objetivo sempre digno de luta, o pensamento marxista é mais extraordinário do que isso e espera dos humanos por livre e espontânea vontade algo que eles não somente não são capazes como também não querem dar: um governo inteiramente popular, uma “ditadura de proletários” em que o bem estar individual é sacrificado pela coletividade.

Estamos falando das experiências socialistas, as tentativas de aplicar o modelo marxista a uma sociedade de grande escala. Essas tentativas revelaram o que há de pior na natureza humana. Josef Stalin, líder comunista soviético que sucedeu Vladmir Lenin, demonstrou ser um déspota sanguinário e genocida implacável, além de um verdadeiro fetichista predador sexual de mulheres.[29, 30, 31] Coisa similar aconteceu na China de Mao Tse-tung e na Camboja de Pol Pot, dois líderes comunistas que, levando a doutrina de Karl Marx às suas últimas consequências, chacinaram seu próprio povo.[32]

A moral aqui é que as características da natureza humana são ampla e facilmente disseminadas não por coincidência ou acidente histórico (e nem por teleologia ou essencialismo, exceções existem e precisam existir;[33] estamos tratando de médias, frequências e probabilidades em vez de absolutos), mas porque conferem benefícios às pessoas e trazem estabilidade social se combinadas com os aparatos culturais certos na maioria das circunstâncias.

Como o comunismo não é um desses aparatos, essas características evoluídas dificultam a perpetuação de sociedades em que as pessoas abdiquem (ou são forçadas a abdicar) desses benefícios em prol de outras pessoas que mal conhecem ou desconhecem totalmente.[34][35] Isso não é uma defesa de que seres humanos são egoístas por natureza. Seres humanos são, na verdade, cooperativos por natureza, só que a cooperação se dá a partir do custo-benefício para o indivíduo que coopera. O recém falecido biólogo Edward O. Wilson definiria melhor:

Karl Marx estava certo, o socialismo funciona, só que ele errou a espécie. Por que não funciona em humanos? Porque temos independência reprodutiva e conseguimos maximizar nossa aptidão darwiniana cuidando da nossa própria sobrevivência e tendo nossos próprios descendentes. […] A organização dos insetos sociais evoluiu com referência ao que seus indivíduos contribuíam para a comunidade, enquanto que a aptidão genética de um ser humano depende do quão bem ele pode usar a sociedade individualmente. Só nos tornamos semelhantes aos insetos através de rígidos acordos contratuais.[36]


Existem dois pontos importantes e pouco comentados quando o assunto é a amizade entre Darwin e Marx, de um lado, e a contextualização histórica do marxismo, de outro. Por mais que marxistas digam que Karl Marx nutria simpatia por Charles Darwin, o alemão passou a sentir verdadeira antipatia pelo inglês quando decidiu estudar sua teoria mais de perto.[37] De fato, o pensamento marxista nasceu de um antropocentrismo quase totalmente especista e oposto à continuidade filogenética darwiniana. Apesar de Marx ter sido um visionário em ser um dos primeiros estudiosos não propriamente naturalistas a admitir a continuidade entre humanos e animais, ele também acabou limitado pelas influências de seu próprio tempo.[38]

Boa parte do materialismo marxista baseia-se no postulado de que, enquanto os outros animais coletam, somente o homem produz.[39] Esse postulado foi fundamental para que Marx enxergasse os humanos como especialmente diferentes do resto dos seres vivos e pulasse para a conclusão de que o homem é o único animal dotado do que chamou de “ser social”, a habilidade que dá à nossa espécie a capacidade de conscientemente e coletivamente construir seu próprio ambiente e, por conseguinte, obter a tão sonhada liberdade – que, dizem os marxistas, fora arrancada de nós pela propriedade privada.

Como se as experiências socialistas não provassem que na prática a teoria parece ser outra, hoje se sabe que uma infinidade de animais são sociais no sentido de também possuírem cultura, variação geográfica em suas práticas culturais e também produzirem e aprimorarem as próprias ferramentas materiais cumulativamente com o passar do tempo. Se existe uma diferença que nos separa do reino animal, já dizia Darwin, essa diferença, “por maior que seja,” certamente “é de grau e não de tipo.”[40, 41, 42, 43, 44, 45]

Notem também que, na imagem original, na mão do personagem que desfere o tapa está a obra de Friedrich Engels, importante intelectual e amigo de Marx, intitulada A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Acontece que essa obra é de uma escola racista, etnocêntrica e preconceituosa, a assim chamada escola antropológica do evolucionismo social.[46] Esse ramo da antropologia defendia, através de uma ótica colonialista e deturpada da teoria de Darwin, que os povos tradicionais eram selvagens que um dia seriam civilizados como os europeus. É irônico constatar que isso veio dos mesmos marxistas que, não raro, têm medo da biologia moderna “justificar o status quo”, do fantasma da “eugenia” e do “determinismo biológico”, as mesmas pessoas que adoram apontar seus dedos às abordagens evolucionistas atuais que, diferente da escola de Engels, passam longe de justificar desigualdades.[47][48]

Agora sim.

Os antropólogos atuais, especialmente aqueles de orientação evolucionista, enxergam os humanos como igualmente capazes de responder às pressões do ambiente, seja ele qual for. Para a felicidade de Marx, é geralmente aceito que é parte da natureza humana a capacidade de modificar o próprio ambiente a benefício próprio e coletivo, modificando de volta a si mesmo e a organização social para o bem estar de todos. Mas, para a infelicidade dele, tudo isso acontece em um cenário caótico, nada linear, pouco previsível e a partir de limitações genéticas, culturais e ecológicas.[49]


Já deve ter ficado mais do que claro que quando um biólogo comportamental, psicólogo ou antropólogo fala de natureza humana ele não está pensando no idealismo hegeliano e nem em essências transcendentais. Mas, não bastassem todas as referências dispostas aqui apontando para a existência do que se pode chamar de natureza humana e de como ela não é “determinada” somente pelas “condições materiais”, pedimos que vocês, por favor, não acreditem na gente.

Não somos uma marca nem os representantes dos cientistas comportamentais evolucionistas do Brasil ou do exterior. Somos apenas uma página feita e mantida por pessoas comuns, acadêmicos de ciências biológicas e sociais. Por isso, convidamos qualquer um interessado que cheque por si mesmo o banco de dados Center for Academic Research and Training in Anthropogeny (CARTA) e veja a abrangência da natureza humana com os próprios olhos.[50]

O CARTA é uma iniciativa transdisciplinar organizada pela Universidade da Califórnia que conta com a colaboração de milhares de pesquisadores pelo mundo. Eles buscam sumarizar e comparar o que se sabe sobre as adaptações morfológicas, psicológicas, emocionais, cognitivas e comportamentais humanas, englobando evolução e genética de primatas humanos e não-humanos, neurociência geral de mamíferos, comunicação e linguagem, preferências românticas e sexuais, motivação individual, cultura em animais não-humanos, biologia desenvolvimental e vários outros temas.

Um sumário da iniciativa CARTA. Clique para ampliar.

Na seção “Research”,[51] o site é separado em artigos e livros (CARTA-Inspired Publications) e em assuntos específicos (MOCA). Em MOCA, os assuntos são separados em domínios ou temas de interesse (por exemplo, comportamento[52]) e, nesses domínios, em tópicos (por exemplo, controle de paternidade[53]). A iniciativa é de enorme importância para cientistas que querem ampliar os fronteiras da própria pesquisa com informações complementares — e também para marxistas, que ainda estão com a cabeça no século retrasado.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB/UFRJ), bolsista PIBIC em Taxonomia e Sistemática (LabEnt/UFRJ), filiado ao grupo de pesquisa Evolução, Moralidade e Política (CNPq/UFRRJ) e apaixonado pela abrangência da teoria evolutiva.

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