O cérebro humano, assim como todos os órgãos e sistemas de todos os organismos do planeta, é produto da evolução. Se você aceita que a evolução é verdadeira, você não pode negar a conclusão de que toda psicologia é psicologia evolucionista. Até porque, qual seria a alternativa? Psicologia criacionista?

O fato é que, além da psicologia evolucionista ser uma área razoavelmente autônoma, ela também é uma proposta metateórica que procura dar um significado às diversas abordagens da mente e do comportamento. Afinal, de que adianta entender desordens mentais e comportamentais, motivações, tendências e preferências individuais sem uma base epistemológica que unifique todos esses fatos sem conexão em um único norte?

O cérebro humano, bem como o cérebro de todos os animais, é um conjunto de módulos computacionais, cada qual favorecido pela seleção natural para lidar com problemas adaptativos enfrentados pela espécie em uma época remota e ancestral. Na nossa linhagem, por exemplo, existem vários sistemas especializados: motivação sexual, instinto materno, cooperação e inferência sociais, julgamento sob incerteza e condicionamento, bem como habilidades visuais, linguísticas e armazenamento e aquisição de conhecimento.

Em relação à psicologia enquanto área científica, independentemente da posição filosófica que se assuma, o comportamento humano e as funções psíquicas + cérebro são mutuamente afetados. E ainda que os pressupostos evolutivos não afetem diretamente a prática clínica de um profissional da psicologia, a verdade é que as quatro questões clássicas da etologia delimitam qualquer análise comportamental, seja uma resposta ou um distúrbio.

A primeira questão indaga as causas imediatas ao comportamento e requer explicações mecanicistas sobre como as estruturas de um organismo funcionam (ex.: hormônios, feromônios, vias moleculares, fisiologia) e como elas afetam o cérebro, eliciando um comportamento, emoção ou transtorno. É aqui que psicoterapeutas, psiquiatras e neurocientistas se focam.

A segunda diz respeito ao histórico e a experiência do indivíduo (isto é, traumas, aprendizagem, condicionamentos) e exige explicações desenvolvimentais e a observação das mudanças e interações no decorrer da vida do indivíduo, incluindo períodos críticos de imprinting ou aquisição linguística, “aprendizagem tendenciosa”, maturação, integração sensóriomotora etc, e como essa experiência modula, via plasticidade, o cérebro e o comportamento. Os psicólogos propriamente ditos trabalham aqui.

A terceira questão refere-se à função adaptativa (fitness) do comportamento para a sobrevivência e reprodução do indivíduo e pode ser visto em algum traço da espécie que resolve um problema reprodutivo ou de sobrevivência em seu ambiente, seja este ancestral ou atual. É aqui que os ecólogos comportamentais trabalham.

Por fim, a quarta questão refere-se à história filogenética da espécie (incluindo cooperação social, diferenças sexuais na biologia reprodutiva e no investimento parental correspondente em mecanismos psicológicos distintos de homens e mulheres, dentre outros). Aqui entra o histórico evolutivo de uma espécie ao longo de várias gerações. É nesse nível que se focam os etólogos e psicólogos evolucionistas.

Se estamos fazendo psicologia, portanto, também estamos fazendo psicologia evolucionista. O sistema nervoso humano foi esculpido pelos mesmos processos evolutivos que forjaram todos os outros sistemas biológicos, e é impossível compreender plenamente um sistema biológico sem recorrer às leis da variação, hereditariedade, seleção e adaptação.

Etologia & Sociobiologia
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Iniciada em 2018, E&S é uma iniciativa de popularização das ciências evolutivas do comportamento.

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