Oflerte e o processo de seleção de parceiros mudaram. O surgimento da cultura de namoro, a proliferação de aplicativos de relacionamento e a idade cada vez maior do primeiro casamento são evidências disso. A situação atual pode ser resumida em quatro parâmetros:

1. Aumento das conquistas femininas;
2. Variabilidade crescente no status e competência masculinos;
3. Um desejo evolutivo entre as mulheres para casamento;
4. A globalização do mercado sexual e o colapso resultante das hierarquias de status locais.

Juntas, essas condições criaram desequilíbrios pronunciados no mercado sexual moderno. Em termos claros, um grupo cada vez maior de mulheres bem sucedidas está perseguindo um número cada vez menor de homens de alto valor, mas avessos a compromissos.

Em um nível superficial, muito disso pode ser explicado pelas proporções sexuais e pela disponibilidade de parceiros. No entanto, a estrutura subjacente da seleção de parceiros moderna é fundamentalmente matemática. Assim sendo, nós precisamos dela se quisermos entender verdadeiramente as causas e consequências do mercado sexual moderno.

Chads, daddies e hipergamia
A hipergamia é uma estratégia sexual desenvolvida onde os indivíduos acasalam e/ou se casam com aqueles mais capazes de fornecer segurança a longo prazo. É o próprio ato de casar. Embora os machos humanos possam envolver-se em hipergamia, é um conceito e uma estratégia mais frequentemente atribuídos às mulheres. É um artefato nascido da crua necessidade darwiniana.

De acordo com o psicólogo evolucionista David Buss, os perigos de nosso passado evolutivo favoreciam as mulheres que eram altamente seletivas na busca de seus parceiros.[1] Para sobreviver ao parto e criar descendentes saudáveis, as primeiras fêmeas humanas precisavam avaliar a posição exata do macho, bem como seu potencial e suas futuras trajetórias. Consequentemente, as mulheres normalmente acasalam visando critérios “para cima” e através de hierarquias de dominância, enquanto os homens normalmente acasalam “para baixo” entre essas hierarquias.

A hipergamia geralmente se manifesta em relação à proteção física. Portanto, é compreensível que características físicas como atletismo, força e altura sejam priorizadas pelas mulheres. Essas são pistas que sinalizam proteção. Vamos considerar a altura. De acordo com um estudo, as mulheres são mais satisfeitas quando o parceiro é 21cm mais alto. Isso é corroborado por outros estudos que descobriram que 49% das mulheres preferem namorar homens mais altos — e que o homem mais baixo que uma mulher toparia sair não pode ter menos que 1,50m.[2][3] Outro estudo relatou que apenas 4% das mulheres aceitariam um relacionamento em que a mulher fosse mais alta. Em geral, os homens altos têm maior probabilidade de obter parceiras atraentes, menos probabilidade de permanecerem sem filhos e mais chances de terem um número maior de filhos em relação aos homens baixos.[4][5][6][7]

No entanto, a altura não é o único fator que determina o acesso masculino ao mercado sexual. A perspectiva financeira também é importante. Um estudo de 1939 descobriu que as mulheres estadunidenses avaliavam as boas perspectivas financeiras duas vezes mais do que faziam os homens. Essa descoberta foi replicada em estudos conduzidos em 1956 e 1967. Além disso, David Buss, tentando replicar esses estudos, entrevistou 1.491 americanos em quatro estados em meados da década de 1980. Mais uma vez, as mulheres valorizavam as boas perspectivas financeiras de um parceiro quase duas vezes mais do que os homens. Essa diferença de gênero não mudou. Na verdade, em 2014 uma pesquisa da Pew Research relatou que 78% das mulheres solteiras prioriza encontrar um cônjuge que possua um emprego estável. Apenas 48% dos homens compartilhavam dessa preferência.[8]

Em um estudo sobre os atributos valorizados em um parceiro, o psicólogo Douglas Kenrick pediu a homens e mulheres que indicassem os “percentis mínimos” de cada atributo que considerariam aceitáveis.[9] Quando se tratava de capacidade de ganho, as mulheres indicaram que preferiam um homem que ganhava 70% mais que todos os outros homens. Por outro lado, os homens desejavam uma companheira que ganhasse 40% mais que todas as outras mulheres.

Em outro estudo, pesquisadores da Universidade de Aberdeen descobriram que os homens subiam dois pontos em uma escala de atratividade após um aumento de dez vezes em seu salário.[10] Para as mulheres atingirem um efeito semelhante de dois pontos, seu salário precisaria aumentar em dez mil vezes. Dito de outra forma, o status socioeconômico de um homem é um dos principais determinantes no quão atraente ele será para uma mulher, mas o oposto não é verdadeiro.

O que acontece quando uma mulher ganha mais do que seu marido? Um estudo descobriu que os casamentos em que a esposa ganhava mais do que o marido tinham 50% de probabilidade de terminar em divórcio.[11] Isso é corroborado por pesquisas finlandesas que concluíram que, enquanto “a alta renda do marido diminui o risco de divórcio […] a alta renda de uma esposa aumenta o risco em todos os níveis da renda do outro cônjuge, mas especialmente quando a renda da esposa excede a do marido”.[12]

Além disso, um estudo com casais suecos relatou que quando a esposa contribuía com 80% ou mais da renda total, o risco de divórcio era duas vezes maior do que quando ela contribuía com menos de 20%.[13] Curiosamente, um estudo também descobriu que os homens que não tinham o papel de provedor principal eram mais propensos a usar medicamentos para disfunção erétil do que os homens que tinham.[14]

A noção de que a maioria das mulheres são extratoras insensíveis de recursos é imprecisa. Elas não estão necessariamente atrás de recursos, mas dos principais preditores de aquisição de recursos. Ou seja, inteligência e trabalho duro.

Nesse sentido, pesquisadores de um outro estudo, analisando 120 anúncios pessoais de relacionamento, descobriram que a educação era um dos dois indicadores mais fortes de quantas respostas um homem recebia de mulheres.[15] A outra era a renda. Além disso, pesquisadores na Austrália relataram que as mulheres eram mais propensas a iniciar contato com um homem se sua educação fosse superior à dela.[16] De fato, pesquisadores da Universidade de Ghent também relataram que as mulheres no Tinder tinham 91% mais probabilidade de “curtir” o perfil de um homem com mestrado em comparação do que um que possuísse somente um bacharel. O clichê de que as mulheres preferem se casar com médicos, advogados e empresários não é somente um ditado, uma fala de efeito. É um fato derivado da hipergamia.[17]

Embora a hipergamia seja tradicionalmente definida tendo a segurança e provisionamento como pontos principais, é importante estipular que há um componente secundário que lida com o apelo sexual bruto e irrestrito. Não se trata apenas de cifrões e pontos de QI. Pergunte a Bill Gates e Jeff Bezos.

A hipergamia é, até certo ponto, favorável ao estereótipo dos chads — os homens altos, fortes e descolados.[18] Independentemente de seus créditos na faculdade, o bad boy que incorpora traços de personalidade da tríade negra (maquiavelismo, narcisismo e psicopatia) é amado. Como tal, a hipergamia em sua forma mais verdadeira prioriza um amálgama do beta e do alfa. O que as mulheres realmente desejam é um chad que possa cumprir seu papel de pai.

A hipergamia é um elemento evolutivo. Odiá-la é o mesmo que odiar as leis da termodinâmica ou os axiomas de Arquimedes. Ela simplesmente é. E é ela a criadora das hierarquias de competência que são usadas para estruturar as sociedades humanas. Se tentar reproduzir-se com mulheres exigentes galvaniza um homem para a conquista e a autorrealização, não é melhor que assim seja?

O topo é solitário

Em comparação com seus pares masculinos, as mulheres jovens têm a vantagem em educação e poder aquisitivo. E então, qual é o efeito da hipergamia quando as mulheres superam os homens?

Desde a década de 1990, as mulheres superaram os homens tanto nas taxas de matrícula quanto na de conclusão da faculdade, revertendo uma tendência que perdurou durante as décadas de 1960 e 1970. Em 1960, havia 1,6 homens para cada mulher que se formava em uma faculdade americana.[19] Compare isso com 2003, onde havia 1,35 mulheres para cada homem graduado. Mais para frente, em 2013, 37% das mulheres de 25 a 29 anos tinham pelo menos um diploma de bacharel, em comparação com 30% dos homens na mesma faixa etária.[20] Além disso, 12% das mulheres nessa faixa etária tinham pós-graduação ou diploma profissional, em comparação com 8% dos homens. E isso não se limita aos Estados Unidos. Reino Unido, Panamá, Sri Lanka, Argentina, Cuba, Jamaica e Brunei têm algumas das maiores proporções femininas no ensino superior.

As moças também estão ganhando mais do que os rapazes. De acordo com dados compilados pela Press Association, as mulheres com idades entre 22 e 29 geralmente ganham 1.111 euros a mais a cada ano que homens da mesma faixa etária.[21] Do jeito que está, as mulheres contribuem com 7 trilhões de dólares para o produto interno bruto dos Estados Unidos por ano e são as provedoras principais em 40% dos lares norte-americanos.[22] Crucialmente, quanto mais bem sucedida profissionalmente for uma mulher, mais forte será sua preferência por homens bem sucedidos.

Em um estudo com mulheres recém casadas financeiramente bem sucedidas, os pesquisadores concluíram que elas “valorizam ainda mais do que as mulheres menos bem sucedidas os companheiros que têm diploma profissional, status social elevado e maior inteligência”. Essa tendência também está presente em contextos transculturais. Estudos separados com 1.670 espanholas, 288 jordanianas, 127 sérvias e 1.851 inglesas descobriram que aquelas com muitos recursos desejavam parceiros com maior status e ainda mais recursos do que elas mesmas.[23][24][25][26]

Em geral, mulheres solteiras têm três vezes mais probabilidade de dizer que não considerariam um relacionamento com alguém que ganhasse menos do que elas.[27] Quando combinado com a verdade fundamental da hipergamia, o crescimento da realização feminina (e a estagnação comparativa da realização masculina) equivale a uma lei de rendimentos decrescentes. Quanto mais uma mulher realiza, menos parceiros adequados ela tem à disposição. É, de fato, difícil “casar para cima” e através de hierarquias de dominância se você já está no topo. Essa dificuldade é agravada pelo fato de que as mulheres mais velhas e poderosas devem competir não apenas entre si, mas com as mulheres mais jovens por um número fugaz de homens de alto status.

Não se engane, os critérios evoluídos masculinos para a seleção sexual priorizam a juventude e a aparência. À medida que os homens envelhecem, desejam mulheres cada vez mais jovens do que eles. Como tal, os homens estão menos interessados no sucesso profissional de possíveis parceiras. Essa dinâmica é confirmada pelas evidências.

Estudos usando dados de sites clássicos de namoro online e speed-dating descobriram que os homens exibiam menos preferência por mulheres cuja inteligência ou ambição excediam as suas.[28][29] Um estudo realizado por quatro universidades do Reino Unido descobriu que a probabilidade de uma mulher se casar diminuiu 40% para cada aumento de 16 pontos em seu QI.[30] Por outro lado, os homens experimentaram um aumento de 35% na probabilidade de casamento para cada aumento de 16 pontos. Finalmente, os pesquisadores relataram que os homens exibiam níveis mais baixos de autoestima implícita quando confrontados com o sucesso de suas parceiras. O oposto é verdadeiro para as mulheres quando seu parceiro teve sucesso.

Curiosamente, algumas mulheres se adaptaram a essa dinâmica. Em um estudo de 2017 com alunos de MBA de elite, três pesquisadores descobriram que mulheres solteiras e não solteiras davam respostas semelhantes a perguntas sobre salário e aspirações de liderança quando achavam que suas respostas permaneceriam anônimas.[31] No entanto, as mulheres solteiras exibiam aspirações menos ambiciosas quando acreditavam que os colegas veriam suas respostas. Os pesquisadores concluíram que mulheres com alto nível de escolaridade podem evitar sinalizar ambição profissional porque isso poderia ser penalizado no mercado de casamento.

Mulheres bem sucedidas enfrentam uma escassez de homens demograficamente superiores quando se trata de casamento. Na verdade, o declínio nascente do casamento foi atribuído a uma suposta escassez de parceiros economicamente atraentes para mulheres solteiras. Aplicando métodos de imputação de dados aos dados de pesquisas nacionais já existentes, os pesquisadores descobriram que as mulheres solteiras enfrentam uma escassez geral de parceiros com diploma de bacharelado ou renda anual superior a 40 mil dólares.[32] Essa assimetria no mercado sexual foi bem documentada no livro Date-onomics de Jon Birger, bem como em um artigo escrito por mim e Rob Henderson.[33][34]

Com base na proporção sexual, um excedente de mulheres em grupos educacionais e econômicos atende ao desejo dos homens por múltiplas parceiras. A relativa escassez de homens dentro desses grupos significa que as mulheres, em competição com outras mulheres, são mais propensas a se conformar com a estratégia sexual dos homens. Nesses ambientes, a cultura de ficar sem compromisso é mais prevalente, enquanto que em ambientes em que os homens são mais numerosos apresentam relacionamentos mais duradouros. Embora essa observação esteja longe de ser novidade, o que não é bem compreendido é até que ponto esse desequilíbrio tende a piorar.

Em 2012, havia 88 rapazes com ensino superior empregados para cada 100 moças que nunca se casaram com ensino superior. Entre os jovens adultos que nunca se casaram e com pós-graduação, havia apenas 77 homens para cada 100 mulheres.[35] Além disso, a proporção de homens empregados para mulheres jovens que nunca se casaram tem diminuído consistentemente. Em 1960, havia 139 homens empregados para cada 100 jovens mulheres nunca casadas. Em 2012, essa proporção era de 91 homens empregados para cada 100 jovens mulheres nunca casadas. Se você acha que essas proporções são preocupantes, espere até ver como serão em 20 anos.

Felizmente, porém, você não precisa esperar tanto. A Figura 1 mostra as matrículas anuais em faculdade entre homens e mulheres nos Estados Unidos. Aqui eu uso a previsão logarítmica para mostrar a diferença total estimada na inscrição por milhão entre os sexos em 2039. Notavelmente, um R^2 de 0,8948 nos diz que o modelo é muito preciso.

Desde 1985, a lacuna de matrículas na graduação cresceu em favor das mulheres. De fato, a linha de tendência logarítmica permanece bastante estável, com ligeiros aumentos ano após ano na diferença total por milhão. Há um superávit médio anual de 2,2 milhões de mulheres matriculadas na graduação entre 2020 e 2029. Entre 2030 e 2039, esse número aumenta para 2,3 milhões. Cumulativamente, haverá 45,1 milhões de mulheres sem um parceiro do sexo masculino com a mesma educação entre 2020 e 2039.

E esse desequilíbrio colossal também afeta o mercado de trabalho. A Figura 2 mostra a taxa anual de participação na força de trabalho entre os homens dos EUA. Aqui, a previsão linear é usada para mostrar a taxa de participação estimada da força de trabalho entre 2021 e 2040. Novamente, o modelo é muito preciso com um R de 0,9649.

Com base nesses números, a taxa de participação da força de trabalho masculina exibe um declínio lento, mas gradual, caindo de 87% em 1950 para 68% em 2019. Excluindo o bloqueio COVID-19 de 2020, a participação masculina na força de trabalho caiu em 0,1% a cada mês desde 1950. Além disso, houve uma queda de 5,4% desde 2005. Com base na linha de tendência linear, a taxa de participação da força de trabalho masculina continuará a diminuir, caindo abaixo de 65% pela primeira vez em 2040. Esses números são particularmente ameaçadores para as mulheres instruídas, uma vez que pesquisas nos Estados Unidos e na Suécia indicam que mulheres instruídas têm maior probabilidade de se casar com um parceiro menos instruído se ele ganhar mais do que ela. Juntos, esses números apontam para um futuro solitário para muitas mulheres jovens instruídas e voltadas para a carreira.[36][37]

Embora alguns possam ser compreensivelmente céticos em relação às minhas descobertas e conclusões, elas estão corroboradas por um relatório de 35 páginas publicado por Morgan Stanley em 2019. Habilmente intitulado The Rise of the SHEconomy, Stanley prevê que 45% da força de trabalho feminina de idades entre 25 e 44 anos estará solteira e sem filhos em 2030, a maior parcela da história.[38] Espera-se que as mulheres solteiras cresçam 1,2% ao ano de 2018 a 2030, em comparação com um crescimento de 0,8% para a população geral dos EUA. Em 2030, a porcentagem de mulheres solteiras ultrapassará a de mulheres casadas.

Embora algumas dessas mulheres possam muito bem evitar os princípios da hipergamia e se contentar com um homem com uma menor condição financeira e educacional, muitas procurarão um parceiro de alto valor. É aqui que as coisas realmente se tornam onerosas.

Poder! Poder ilimitado!
Ao selecionar um parceiro de longo prazo, vamos supor que as mulheres solteiras nos Estados Unidos com mais de 18 anos basearam seus critérios de seleção na “regra dos seis”. Esta é uma heurística de namoro que estipula que o parceiro ideal de uma mulher deve ter (a) uma renda de seis dígitos, (b) abdômen com tanquinho e (c) ter 1,80m de altura.

Existem, é claro, muitas qualidades e características além dessas três que tornam um homem atraente. No entanto, para o propósito dessa lição com objetos matemáticos, selecionei a regra dos seis, pois ela representa um proxy simples para a seleção de pares hipergâmicos. Vamos aos números.

De todos os homens nos Estados Unidos, estima-se que 13% têm uma renda anual de $ 100.000 ou mais, 14,5% têm 1,80m ou mais e 10% têm abdominais com tanquinho. Embora o número provavelmente seja bem menor, vamos supor que 1% dos homens americanos possuísse as três qualidades. Isso equivale a 1,009 milhão de homens com 18 anos ou mais. Em comparação, estima-se que haja 33,8 milhões de mulheres que nunca se casaram com 18 anos ou mais nos Estados Unidos.[39]

Se nos mantivermos dentro dos parâmetros deste modelo, esse grupo de mulheres efetivamente supera seus parceiros desejados por um fator de 34. Além disso, se cada homem for casado com uma única mulher, isso deixará 32,8 milhões de mulheres sem um companheiro. Esse é um desequilíbrio impressionante.

Referida como regra 80/20 ou princípio de Pareto, uma distribuição de lei de potência descreve uma relação entre duas variáveis, onde uma pequena quantidade da variável A é responsável por uma proporção desproporcional da variável B.[40]  O mercado sexual moderno baseia-se em uma lei de potência em que um pequeno número de homens muito bem sucedidos é desejado pela maioria das mulheres. Embora seja improvável que essa distribuição seja perfeitamente 80/20, é provável que haja algum tipo de desequilíbrio.

É importante ressaltar que não estou sugerindo que um pequeno grupo de homens namore e durma com a maioria das mulheres. Isso é uma impossibilidade logística. No entanto, existe uma assimetria quando se trata de atração e atenção — e isso fica evidente na pesquisa do Tinder.

De acordo com um estudo desse aplicativo de namoro, enquanto os homens “gostaram” de 60% dos perfis femininos que visualizaram, as mulheres gostaram de apenas 4,5% dos perfis masculinos. Além disso, as mulheres, em média, viam 80% dos homens em aplicativos de namoro como abaixo da média em atratividade. É importante ressaltar que um estudo , buscando quantificar as perspectivas de sucesso no Tinder, determinou que “os 80% da base dos homens (em termos de atratividade) estão competindo pelos 22% das mulheres da base e os 78% das mulheres do topo estão competindo pelos 20% dos homens ”.[41][42][43]

Embora as distribuições de lei de potência ocorram naturalmente em uma infinidade de configurações, meu argumento é que sua presença no Tinder é intencional. O algoritmo principal do aplicativo não é calibrado para produzir resultados iguais. Esta é uma função de seu uso do sistema de classificação ELO. Criado pelo físico húngaro-americano Arpad Elo, o sistema de classificação ELO foi projetado para classificar jogadores de xadrez em torneios nacionais.[44] Simplificando, a classificação de um jogador é gerada a partir das classificações de seus oponentes e dos resultados marcados contra eles.

Embora o algoritmo do Tinder seja certamente complexo, é fundamentalmente um “vasto sistema de votação” com base no ELO.[45] Para elaborar, a “desejabilidade” de um perfil do Tinder tem como premissa quantos usuários o “gostaram” e qual era a desejabilidade desses perfis.

Quanto mais curtidas você acumular, maior será sua desejabilidade. Além disso, sua desejabilidade geral dispara quando um usuário com uma maior desejabilidade gosta de seu perfil. Se um perfil com uma desejabilidade igual ou inferior não gostar do seu, sua classificação será prejudicada. Obviamente, o algoritmo atenderá a perfis cuja classificação de atratividade é semelhante à sua. Este sistema de classificação é feito sob medida para uma distribuição de lei de potência.

Teoricamente, um homem de aparência média não será capaz de aumentar sua taxa de atratividade se mulheres com classificações mais altas não gostarem de seu perfil. E por que é que elas fariam isso? Independentemente de sua classificação de desejo, as mulheres que usam o Tinder não estão atrás de gordinhos. Elas estão lá pelos chads ou algum equivalente de alto status. Na verdade, a pesquisa indica que os homens têm duas vezes mais chances de receber uma resposta de mulheres menos desejáveis do que eles próprios do que de outras mais desejáveis.

Lembre-se de que as mulheres no Tinder “gostavam” de apenas 4,5% dos perfis masculinos, enquanto os homens gostavam de 60% dos perfis femininos. Lembre-se também de que a base de usuários do Tinder é 72% masculina e 28% feminina.[46] Isso significa que 72% da base de usuários está gostando de 60% dos outros 28%, enquanto 28% estão gostando de apenas 4,5% dos outros 72%. Como tal, a classificação de desejo da maioria das mulheres no aplicativo é inflada devido ao excesso de curtidas de homens com classificações inferiores, iguais ou superiores.

Essa inflação coloca as mulheres com uma classificação de desejabilidade objetivamente mais baixa no mesmo grupo de homens altamente desejáveis que foram selecionados naturalmente. Assim, um pequeno número de homens recebe grande parte da atenção e do interesse da maioria das mulheres no Tinder.

Nos últimos anos, o Tinder afirmou que se afastou da ELO. Mas aí está uma coisa difícil de acreditar. Embora mudanças sutis possam ter sido feitas no algoritmo, é provável que a mecânica central esteja intacta.

O metagame financeiro do Tinder depende da facilitação de uma distribuição de lei de poder entre seus usuários. Dado que 78% das mulheres no aplicativo estão competindo por 20% dos homens, o Tinder fará tudo o que puder para manter esses homens em disputa. Ele se preocupa pouco com os 80 e 22 por cento da base de homens e mulheres, pois esses usuários não geram muito tráfego.

Esse desequilíbrio da lei de poder no mercado sexual é uma explicação possível para o aumento da assexualidade masculina. De acordo com a Pesquisa Social Geral, a proporção de homens com menos de 30 anos que não têm feito sexo quase triplicou de 8% em 2008 para 28% em 2018.[47]

Você ao menos entende de matemática, amigo?
Nos últimos meses, tentei criar um modelo matemático para descrever esse desequilíbrio no mercado sexual. A modelagem matemática é uma ferramenta investigativa útil para a compreensão do comportamento humano. Embora eu tenha projetado vários modelos lineares, polinomiais e de limiar, nenhum foi capaz de capturar adequadamente como homens e mulheres selecionavam seus parceiros. Felizmente, encontrei um artigo de 2016 dos psicólogos evolucionistas Daniel Conroy-Beam e David Buss, que propôs o uso de um algoritmo de integração euclidiana para determinar como a preferência e a seleção do parceiro estavam ligadas.[48]

O problema com meus modelos anteriores era que eles tratavam as preferências de parceiro isoladamente. Os parceiros em potencial não apresentam uma característica de cada vez. Em vez disso, avaliamos parceiros em potencial com base em um bando de características.

Um algoritmo de integração euclidiano incorpora preferências de parceiros enquanto captura toda a gama de parceiros potenciais e suas características. A atração por um parceiro é calculada como a distância inversa entre a preferência de uma pessoa e as características correspondentes de cada parceiro potencial. Em linguagem simples, o modelo compara o que você está procurando em um parceiro com se os parceiros em potencial possuem essas características. Quanto mais próximas essas duas coisas estiverem, mais um parceiro corresponderá às suas preferências. O modelo matemático de Conroy-Beam e Buss era assim:

N  = número de características;  p  = valor de preferência de uma pessoa;  t  = valor de característica de um companheiro.

Esse modelo oferece uma visão fundamental do nosso mercado sexual desequilibrado. O número e o peso das preferências românticas de uma mulher estão negativamente correlacionados com o número de companheiros elegíveis disponíveis para ela. Assim, a distância de um futuro companheiro para uma mulher aumenta com cada nova preferência que ela adiciona. Simplificando, quanto mais você exige, menos você recebe.

De maneira mais geral, há uma desconexão entre o que as mulheres desejam e o que realmente está disponível para elas. Enquanto uma maior realização masculina aumenta o número de opções românticas de um homem, uma maior realização feminina reduz o número de opções de uma mulher.

Esse desequilíbrio no mercado sexual não é bom. Uma sociedade repleta de mulheres solitárias e homens sexualmente frustrados está se precipitando para o desastre. É imperativo que nós, como sociedade, pensemos cuidadosamente sobre as soluções para essa crise crescente.

Tradução do texto Mate Selection for Modernity, escrito originalmente pelo cientista de dados Vincent Harinam e disponível em Quillette. Foto de capa por Jennifer Marquez em Unsplash.

Samuel Fernando
Samuel Fernando

É biólogo, estudante de engenharia de computação e vinculado a um grupo de pesquisa em neurociência computacional na Universidade Federal do ABC.

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