O esporte frequentemente nos apresenta exemplos visuais impressionantes de como certos aspectos da sociedade operam. Quer seja nacionalismo, liderança, trabalho em equipe, competitividade ou a capacidade dos humanos de realizar atos realmente grandes, o esporte é a personificação de como esses fatores interagem e se manifestam no cenário mundial. O esporte também oferece algumas das representações visuais mais óbvias das diferenças sexuais biológicas inerentes entre homens e mulheres. Infelizmente, embora talvez não seja surpreendente, o desejo atual de igualdade e inclusão e os mal-entendidos gerais sobre o sexo biológico como um processo evolutivo trouxeram certa confusão em torno do uso tradicional das categorias sexuais no esporte. De certa forma, isso também destaca as dificuldades que podem ser aparentes com a erosão das categorias de sexo em outras áreas da vida, como em relação às prisões, mudança de área e as questões de igualdade de remuneração.

Como um cientista do desempenho e alguém que trabalhou com esportes de elite por mais de uma década, estou interessado nos determinantes do desempenho físico e em como manipular e aprimorar essas variáveis. Ao longo dos meus anos trabalhando com atletas, acostumei-me a observar as diferenças entre os sexos e estudei extensivamente por que essas diferenças existem. Portanto, tem sido desconcertante para mim ver algumas das discussões sobre por que existem categorias sexuais no esporte e como incluir transatletas. O que devemos entender é que atualmente existe uma falta de compreensão geral a respeito das consequências potenciais no esporte de elite devido à formulação de políticas mal informadas e às pressões de grupos ativistas. Tentarei, portanto, esclarecer o assunto e também fazer algumas perguntas importantes para consideração futura.

Vejamos brevemente o que é esporte. O esporte é uma indústria multibilionária, com intensa competição, profissionalismo e feitos notáveis de habilidade natural. Atletas, treinadores e proprietários fazem tudo o que podem para obter vantagem sobre a competição e ter sucesso. Para muitos, a competição pura do esporte é suficiente, independentemente de ganhos e patrocínios. Para outros, é sua carreira, sua vida, seus sonhos. No entanto, para alguns, é um mero passatempo, uma atividade de lazer e uma forma de manter a forma. Nenhum deles é inerentemente mais importante do que o outro, mas o debate recente sobre a inclusão trans no esporte significa que devemos avaliar o que essas coisas significam para as pessoas envolvidas e o que está em jogo se errarmos nas políticas.

Tradicionalmente, o esporte foi dividido em categorias masculinas e femininas. Isso se baseia nas diferenças biológicas entre os sexos e não necessariamente no que pode ser interpretado como gênero. A competição, portanto, se desenrolou dentro dessas categorias, com diferenças relativamente grandes nos resultados sendo observadas entre homens e mulheres (ver Tabela 1). Longe de serem produtos da socialização e do ambiente, essas diferenças foram registradas entre diferentes tipos de esportes, culturas e gerações. A tabela abaixo demonstra os recordes mundiais alcançados em eventos masculinos e femininos e as diferenças percentuais entre eles.

Tabela 1: Diferenças nos records mundiais de homens e mulheres.

Esses resultados por si só deveriam fornecer uma base lógica sólida para o motivo de haver categorias sexuais separadas no esporte se estamos falando de permitir uma competição justa. Confirmando isso, está o fato de que, dentro da competição masculina, os melhores desempenhos individuais do mundo geralmente ficam a 1% de distância um do outro, às vezes até mesmo a 0,1%. O mesmo se aplica à competição feminina. Esses resultados também se refletem em outros esportes, como ciclismo e natação. Isso demonstra claramente que não há um continuum de resultados de desempenho entre os sexos biológicos; em vez disso, os resultados são bimodais, e a média feminina e a média masculina diferem substancialmente. Para ser claro, este não é um argumento moral, ou uma tentativa de justificar qualquer indivíduo sendo tratado de forma diferente de outro, é simplesmente uma revisão da evidência empírica e uma justificativa para a existência de diferentes categorias.

Pode-se argumentar que, mesmo dentro de um determinado sexo, existem grandes diferenças entre os indivíduos, e que é possível ver diferenças substanciais entre idades ou etnias. Embora isso possa ser verdade, até que ponto você deve descer na mentalidade interseccionalista até estar satisfeito com a possibilidade de competição entre indivíduos iguais? Simplesmente não é possível, uma vez que, por definição, qualquer pessoa é um indivíduo, com suas próprias características e diferenças únicas. Mesmo dentro de faixas etárias e etnias distintas, existem grandes diferenças entre os indivíduos em termos de características físicas e pré-requisitos para o desempenho. Tentar determinar quais são essas categorias e quem se qualifica para o que é um pesadelo, não vale a pena considerar. Nesse aspecto, o esporte se mostra um golpe devastador para o interseccionalismo e suas limitações.

Para ser justo com a discussão sobre as diferenças, no entanto, a variação real observada entre as etnias é muito menor do que a observada entre as categorias masculina e feminina e só pode ser percebida no auge do esporte de elite, como a final dos 100m, onde 100% dos campeões nos últimos 30 anos tinham ascendência oriunda da África Ocidental. No entanto, os melhores resultados observados em outras etnias se enquadram em uma faixa muito mais estreita em torno desses resultados principais do que os resultados envolvendo sexos opostos.

Tem havido muitos argumentos ao longo dos anos de que as diferenças observadas entre homens e mulheres no desempenho esportivo são devidas à socialização e ao ambiente[1]. Essa ideologia de tabula rasa parece um tanto ingênua aos fatos do dimorfismo sexual presente em todos os mamíferos. Apesar de nossas tendências comuns em direção ao egocentrismo, nós certamente não acreditamos que somos a única espécie que não apresenta diferenças sexuais, certo?

Para dar aqui um rápido resumo de modo que possamos entender o que estamos discutindo, o dimorfismo sexual é onde machos e fêmeas diferem para além de seus órgãos sexuais. Por exemplo, no mandril (uma espécie de macaco do Velho Mundo que compartilha um ancestral comum com os humanos de aproximadamente 25 milhões de anos atrás), o macho é 2-3 vezes mais pesado do que a fêmea. Como Dawkins afirmou em seu livro O Gene Egoísta, machos e fêmeas, por definição, diferem pelo tamanho de suas “células sexuais ou gametas”, e ao longo do tempo evolutivo, onde há uma diferença inicial no tamanho do gameta, os efeitos da seleção sexual parecem progredir para maximizar as especialidades dos dois sexos e é então “possível interpretar todas as outras diferenças entre os sexos como decorrentes desta única diferença básica”.

Dimorfismo sexual em seis espécies de primatas. Os machos, maiores e mais robustos, estão do lado esquerdo. Curiosamente, o exemplo humano é Charles Darwin e sua esposa, Emma Darwin. N .T. De Wilson et al. 2017, “Humans as a model species for sexual selection research”.

Os efeitos do dimorfismo sexual em humanos são pronunciados na fisiologia e na estrutura anatômica visível[2]. Embora sempre existam argumentos ignorantes de que algumas mulheres são mais altas do que alguns homens, ou que algumas mulheres são mais fortes do que alguns homens, é claro que estamos falando de médias. Ou, mais importante, no que diz respeito à competição esportiva, dos melhores homens comparados às melhores mulheres.

Então, quais são as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres que afetam o desempenho? Um dos principais contribuintes é a diferença na força muscular. Muitos estudos, possuindo amostras grandes de diferentes culturas, descobriram que os homens têm 30 a 40% mais massa muscular do que as mulheres. A área de secção transversal de um músculo está altamente correlacionada ao desempenho de tarefas físicas, uma vez que a força é um pré-requisito da qualidade física. Uma analogia aqui seria pensar em dois pedaços de corda. Se as duas cordas forem feitas do mesmo material, a corda mais grossa será a mais forte. Além disso, no músculo esquelético, o material (ou fibras musculares) realmente difere. O que descobrimos é que os machos têm uma proporção maior de fibras do tipo II, que são capazes de se contrair mais rapidamente e produzir mais força do que suas contrapartes[3].

Homens e mulheres também variam no tamanho e na estrutura esquelética. Os homens têm ossos mais longos e mais grossos, sendo a densidade óssea relacionada à capacidade de aplicar força e resistir a lesões[4]. A forma correspondente do esqueleto e a biomecânica resultante também significam que o corpo feminino é configurado para produzir menos força ao correr, pular e arremessar.

Todas essas características contribuem para o que pode ser denominado de força muscular. A potência é frequentemente medida em estudos da ciência do esporte, uma vez que a potência está altamente relacionada ao sucesso no desempenho esportivo. Simplificando, quanto mais força você pode produzir, mais alto você pode pular, mais rápido você pode acelerar, mais forte você pode chutar e socar, e mais longe você pode lançar. O que descobrimos é que os homens podem pular cerca de 25% mais alto que as mulheres[5], podem socar 30% com mais força[6], acelerar cerca de 20% mais rápido e arremessar 25% mais longe[7].

E também não é apenas no que diz respeito à força que vemos diferenças sexuais. Os homens têm maior capacidade pulmonar[8], maior resposta cardíaca[9] e maior resistência a lesões[10].

Como nota de rodapé, a fim de me proteger contra a ameaça de ser chamado de supremacista masculino, certamente nem tudo é uma boa notícia para os homens. Os homens têm um risco maior de ataques cardíacos e diabetes tipo 2, junto com uma série de outras doenças que resultam no fato deles morrerem em média 4 anos mais cedo. No entanto, parece que os aspectos fisiológicos negativos associados a ser um homem biológico às vezes são ignorados.

Compilação de diferenças biológicas e psicológicas resultantes da evolução do dimorfismo sexual. N. T. De Sell et al. 2012, “The Importance of Physical Strength to Human Males”.

Agora sabemos que existem muitas diferenças físicas entre homens e mulheres, que não podem ser explicadas apenas pela sociedade e pelo ambiente. Então qual é a causa dessas diferenças? Bem, um dos principais contribuintes é a influência da testosterona, com grandes diferenças ocorrendo ao longo da puberdade[11]. Porém, mesmo antes da puberdade, são observadas diferenças em muitas características, incluindo tamanho e forma corporal, e também nos níveis de agressão[12]. De fato, foi destacado que mais de 3.000 genes contribuem apenas para diferenças musculares entre homens e mulheres. Essa combinação de componentes genéticos e hormonais resulta em muitos fatores, cada um contribuindo para as diferenças que se manifestam em homens e mulheres. Embora os efeitos da suplementação ou inibição de testosterona possam modificar as características originais, é improvável que reverta todas as manifestações sexualmente dimórficas.

Agora, conhecendo os dados objetivos, o que isso significa para os transatletas? O aumento dos direitos LGBT e das ideias de inclusão (que são objetivos nobres) foi de alguma forma confundido com o motivo de haver categorização dos atletas. Talvez tenha havido uma suposição de que, como a identidade de gênero pode ser aceita como algo fluido, o sexo biológico também deve ser fluido. Mas a identidade de gênero percebida não é a mesma coisa que o sexo biológico. Este é um exemplo dos sentimentos subjetivos de alguém contra a realidade objetiva. E embora uma pessoa seja livre para acreditar no que quiser, seus sentimentos subjetivos nunca podem anular as evidências empíricas.

Certamente pode ficar claro que muitos dos apoiadores da inclusão e da participação também são os mesmos que não gostam da ideia de competição em geral. Assim, para eles, a ideia de não poderem participar de todas as categorias que uma pessoa deseja é terrível. Mas isso não é o que a maioria das pessoas pensa sobre o esporte, e  certamente isso não se aplica ao nível de elite. Por exemplo, eu adoraria ser campeão mundial dos 100m, mas minha fisiologia não permitiria, não importa o quanto eu treinasse ou o quanto eu quisesse. Mas eu não me sinto excluído. Nem todos podemos ser capazes de fazer todas as coisas no mundo e, embora queiramos remover as barreiras artificiais e permitir a oportunidade e a participação, não podemos negar os fatos da vida.

Não se trata apenas de justiça na competição e dos ganhos potenciais em jogo. Embora existam muitas mulheres que ganham a vida no esporte profissional, talvez exista um perigo ainda maior. Isso pode ser aparente no boxe e esportes de luta, onde os níveis mais elevados de força e potência podem levar a consequências devastadoras. Pode haver gritos aqui de que estou sendo alarmista e procurando os piores resultados possíveis, que nunca vão realmente ocorrer. Mas não podemos prever o futuro, e é ingênuo tomar decisões sem pensar em todas as possíveis consequências. Na verdade, alguns dos resultados disso já começaram a aparecer. Pode haver alguns que digam que simplesmente aceitamos e seguimos em frente, mas não acho que seja uma conclusão precipitada e certamente requer algum diálogo sério e discussão sensata em muitos níveis.

Então, que outras opções podem existir? Abandonamos totalmente as categorias sexuais? Se decidirmos acreditar que as mulheres trans são mulheres biológicas ou fêmeas (o que as evidências discordam), então a diferença entre as categorias esportivas atuais de homens e mulheres deixará de existir. Um continuum de resultados de desempenho sem dúvida aparecerá, então talvez não haja necessidade de categorias sexuais separadas. Bem, acho que está claro o que isso faria com a maioria das mulheres que competem atualmente em esportes profissionais. Embora isso também resolvesse os problemas de igualdade de remuneração no esporte, provavelmente resultaria em muito menos mulheres realmente capazes de competir no nível profissional.

Portanto, se decidirmos não abandonar as categorias sexuais, fazemos o quê, acrescentamos uma terceira categoria de competição? Parece uma boa solução, mas certamente existe a preocupação de que isso por si só seja classificado como exclusão.

Outra opção seria tornar a categoria masculina uma categoria “aberta”, onde homens e mulheres (incluindo trans) podem escolher competir se desejarem. Embora seja improvável que muitos transatletas ou mulheres competissem no nível mais alto na categoria “aberta”, também é o caso que, de qualquer maneira, apenas uma porcentagem muito pequena de homens é realmente capaz de competir no nível mais exigente. Mas certamente não haveria nada para impedir a participação dos transatletas.

Seja qual for a resposta, ela não é simples. Embora nossas ideologias e crenças muitas vezes transformem problemas complexos em narrativas simples, infelizmente o mundo real não age dessa maneira. Existem áreas cinzentas e ambíguas em todas os aspectos da vida, e é essencial tentar entendê-las e fazer o melhor que pudermos em qualquer situação. Mas, inevitavelmente, há momentos em que é necessário estabelecer distinções e limites claros para fazer a sociedade funcionar. Nesses casos, não é possível desenvolver uma solução para todos os problemas instantaneamente, mas é possível fazer o melhor que pudermos com as evidências que temos. Embora o esporte participativo gire em torno de um jogo de soma não-zero, onde realmente não importa quem compete em quê, já que se trata de participar, o esporte de desempenho, por outro lado, é um jogo de soma zero — ou ganha, ou perde. O esporte de alto desempenho tem a ver com competição, com grandes consequências em termos de finanças, meios de subsistência e saúde. A legislação deve ser clara e precisa e, acima de tudo, deve ser objetiva por natureza. Sentimentos pessoais e ideias de inclusão são importantes, mas não podemos nos esconder dos fatos.


Tradução (com a colaboração de Matheus Coelho) do texto Sex Differences, Gender, and Competitive Sport, escrito pelo cientista de performance e treinador Andrew Langford.

Mário Pereira Gomes
Mário Pereira Gomes

Graduado em História (UFPE), transhumanista e divulgador científico.

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