Qualquer intromissão ideológica na ciência é um convite ao pensamento desejoso. Em seu poderosamente argumentado A Darwinian Left (“Uma Esquerda Darwinista”, em tradução livre), Peter Singer segue o caminho oposto: Como a ciência pode tornar uma ideologia mais realista em vez de transformá-la em um sonho quimérico?

As ideologias afirmam ser realistas e, ao escolherem seletivamente o que se encaixa em seus arcabouços teóricos enquanto ignoram o que deixa de se encaixar, geralmente dão a si mesmas um verniz de respeitabilidade intelectual. O darwinismo social (sempre um nome impróprio) costumava fornecer esse verniz para a direita socioeconômica, que mais recentemente adotou a eficiência competitiva para o crescimento máximo em nosso mundo demasiado finito. Em ambos os casos, might makes Right. 

Para Singer, e para mim, o cerne da esquerda está em um conjunto de valores que, principalmente, além de serem intrínsecos, independem de sucesso ou poder. Tradicionalmente, várias crenças factuais foram acrescentadas a esses valores, como a volatilidade da natureza humana e sua perfectibilidade pela mudança social. Devido a esbarrarem em fatos, essas crenças podem ser investigadas empiricamente. Na verdade, com base nas evidências atuais, essas duas crenças são, aparentemente, falsas. Singer dedica uma parte substancial de seu livro para estabelecer o pano de fundo para tais revisões.

A essência de seu argumento subsequente é mais ou menos assim: É quixotesco tentar eliminar características que são praticamente universais entre as culturas, como o autointeresse, um sistema de posição social e até mesmo o ciúme sexual. Entre esses quase-invariantes, no entanto, está a prontidão para formar relacionamentos cooperativos e reconhecer obrigações recíprocas. Embora a importância relativa da cooperação e da competição varie consideravelmente entre as culturas, é tendo a cooperação como foco que poderemos ter uma melhor chance de mudança social fundamentada em um alicerce real.

Com a cooperação, argumenta Singer, sempre surge o problema dos trapaceiros, que recebem e nada dão. Provavelmente, menos desigualdade pode reduzir seu número, mas não remover o problema: o autointeresse é poderoso. Para aproveitar o interesse próprio de forma a promover a cooperação, provavelmente é necessário tornar a trapaça não lucrativa. Assim, visto que a cooperação é tão valorizada à esquerda, temos prisões e outras sanções (embora Singer não as deixe explícitas) que tornam trapaceiros inacessíveis pessoalmente.

E o que tudo isso tem a ver com os processos de evolução biológica? Um tratamento sofisticado da cooperação e de seus problemas existe na sociologia. Esse tratamento é mais facilmente adaptado do que o que vemos na evolução. No mundo natural, a cooperação pode, de fato, vir de diversos processos evolutivos. Vamos a alguns exemplos:

  • Uma espécie de bactéria pode produzir um resíduo que inibe sua expansão se não for removido por uma segunda bactéria, que usa esses resíduos como seu próprio alimento, beneficiando ambas.
  • Quando os tempos ficam difíceis, algumas amebas se reúnem e produzem um corpo frutífero em pedúnculo, a partir do qual os esporos têm a chance de alcançar alguma pastagem.
  • Uma alga e um fungo podem formar, juntos, um líquen, algo que pode viver a partir da emergência dessa união, que por sua vez impossibilita que seus componentes sobrevivam sozinhos.
  • Em cardume, as chances de um peixe ser comido é consideravelmente menor.
  • Uma matilha de lobos pode vencer um rena que seria ameaçadora para um só.
  • Um besouro pode comer o pólen de uma flor e transferir um pouco para a próxima flor que for visitar.
  • Um fungo pode ajudar uma planta a absorver nutrientes e, em troca, obter dela a energia necessária para transferir a uma planta mais frágil, assim impondo a cooperação.
  • Uma abelha geralmente ferroa e morre no processo, para o bem de seus parentes.

Várias outras causas de cooperação são encontradas na natureza, algumas menos fáceis de visualizar. Alguns desses processos também se aplicam às sociedades humanas, mesmo que Singer ignore, e com razão, completamente essa diversidade de fundo. Não é disso que nossas sociedades são construídas, majoritariamente.

No mundo biológico, a cooperação quase sempre é apenas um mecanismo de competição. A única classe de exceções que conheço é quando a cooperação permite o uso de recursos que, de outra forma, não seriam usados, como acontece com um líquen em uma rocha nua. Cada espécie e população se expande até que algo impeça. Se a cooperação permitir mais expansão, isso será automaticamente favorecido pela seleção natural — caso contrário, perecerá.

Como Singer aponta, Karl Marx e outros notaram que a teoria de Darwin tinha semelhanças importantes com a sociedade inglesa da época em que foi proposta, com fenômenos como competição e divisão de trabalho. A teoria foi difamada por causa dessa semelhança, mas foi magnificamente justificada e sobreviveu inalterada em sua forma básica. Portanto, podemos virar a crítica de cabeça para baixo: em vez da semelhança contestar o que sabemos sobre evolução, a descoberta inicial ter sido na Inglaterra daquela época foi algo importante. Alfred Russel Wallace, co-autor da teoria da evolução por seleção natural, também era inglês, e tanto ele quanto Darwin tiveram sua visão básica ao ler On Population, de Thomas Malthus.

A Darwinian Left: Politics, Evolution and Cooperation.

A primazia da competição sobre a cooperação no mundo biológico significa que a direita tem razão? De jeito nenhum. Um estudo da evolução é útil para desmascarar as crenças factuais tanto da direita quanto da esquerda. Além disso, podemos exercer nosso domínio sobre peixes e aves não literalmente, mas transcendendo os processos automáticos do mundo biológico. Não precisamos usar o mundo natural como modelo para nossas ações, muito menos como modelo para nossos valores. Somos “superiores” apenas por causa de um cérebro que nos permite fazer escolhas gerais, bem como escolhas específicas. Se, em conjunto, preferirmos uma abordagem cooperativa em vez de competitiva, temos a capacidade de modificar nossa sociedade para o bem de todos. Assim, podemos escolher transcender nossa herança. É um truísmo dizer que não somos donos da terra, que somente a pegamos emprestada para nossos filhos. Um truísmo que incorpora o espírito cooperativo e ressoa profundamente com a esquerda.

Para Singer, portanto, uma esquerda darwinista não deve negar a existência de uma natureza humana, nem insistir que ela seja inerentemente boa ou infinitamente maleável; não deve pensar poder acabar com todos os conflitos e lutas entre seres humanos, seja por revolução política, mudança social ou melhor educação; e não deve supor que toda a desigualdade é devida à discriminação, preconceito, opressão ou condicionamento social (algumas serão, mas isso não pode ser assumido em todos os casos).

Ao mesmo tempo, uma esquerda darwinista precisa aceitar que existe uma natureza humana (e encorajar-se a saber mais sobre isso, de maneira que as políticas públicas possam ser fundamentadas no melhor conhecimento disponível sobre nosso comportamento); rejeitar qualquer inferência do que é “natural” como sendo automaticamente sinônimo de “certo”; reconhecer que a forma como tratamos animais não-humanos é um legado de um passado pré-darwiniano, um que exagerou a lacuna entre nós e eles, e com base nisso trabalhar em melhorar o status moral dos outros animais, desenvolvendo uma visão menos antropocêntrica de nosso domínio sobre a natureza.

Uma esquerda darwinista precisa aprender a lidar com o fato de que, sob diferentes sistemas sociais e econômicos, muitas pessoas atuarão de forma competitiva a fim de melhorar seu próprio status, ganhar uma posição de poder e/ou promover seus interesses e aqueles de seus parentes; e que, independentemente do sistema social e econômico em que vivem, a maioria das pessoas responderá positivamente a oportunidades genuínas de entrar em formas de cooperação mutuamente benéficas. Para isso, a posição deve promover estruturas que aumentem a cooperação em vez da competição (tentando canalizar a competição para fins socialmente desejáveis). Uma esquerda darwinista deve defender os valores tradicionais da esquerda política ao estar do lado dos fracos, pobres e oprimidos, mas pensar com muito cuidado sobre quais mudanças sociais e econômicas realmente funcionarão para beneficia-los.



Traduzido e adaptado do artigo How the Left Got Darwin Wrong, do ecólogo Leigh Van Valen.

Matheus Coelho
Matheus Coelho

Idealizador da E&S, é graduando em Ciências Biológicas (IB-UFRJ) e apaixonado pela relação entre comportamento e evolução.

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